segunda-feira

Compasso para nada

"Muitas vezes há que descer até às pessoas que vivem à custa de outras, homens ou mulheres, para termos de procurar o móbil da acção ou das palavras aparentemente mais inocentes no interesse, na necessidade de viver. Qual é o homem que não sabe, quando uma mulher a quem vai pagar lhe diz: «Não vamos falar de dinheiro», que esta frase deve ser contada, como se diz em música, como um «compasso para nada», e que, se mais tarde ela lhe declara: «Desgostaste-me muito, escondeste-me muitas vezes a verdade, estou farta», deve interpretar a declaração do seguinte modo: «Há um outro protector que lhe oferece mais?» E isto é apenas a linguagem de uma cocotte, bastante próxima das mulheres da sociedade."


quinta-feira

Bastou-me vê-la com os lírios

  "— Começou porque na véspera houve uma espécie de ensaio que era uma coisa linda! — continuou ironicamente a senhora de Guermantes. — Imaginem que ela dizia uma frase, ou nem sequer isso, um quarto de frase, e parava; não dizia mais nada, e olhem que não estou a exagerar, durante cinco minutos.
  — Ena, ena, ena! — exclamou o senhor de Argencourt.
  — Com toda a delicadeza deste mundo permiti-me insinuar que aquilo talvez fosse causar algum espanto. E ela respondeu-me textualmente: «É sempre preciso dizer uma coisa como se estivéssemos nós a compô-la.» Se pensarem bem, é monumental, esta resposta!
  — Mas eu julgava que ela não era má a dizer versos — disse um dos dois rapazes.
  — Ela nem sabe o que isso é — respondeu a senhora de Guermantes. — De resto, não precisei de a ouvir. Bastou-me vê-la com os lírios! Percebi logo que ela não tinha talento quando vi os lírios!"


"Mas, no segundo dia, tive de ir dormir ao hotel. E sabia adiantadamente que era fatal ir encontrar lá a tristeza. Esta era como um aroma irrespirável que, para mim, desde que nascera, qualquer quarto novo exalava, quero dizer, qualquer quarto: naquele onde habitualmente morava não estava presente, pois o meu pensamento permanecia noutro sítio e em seu lugar mandava apenas o hábito. Mas não podia encarregar este criado menos sensível de tratar das minhas coisas num lugar novo, aonde chegava antes dele, aonde chegava sozinho, onde tinha de pôr em contacto com as coisas aquele «Eu» que só reencontrava com anos de intervalo, mas sempre o mesmo, que não crescera desde Combray, desde a minha primeira chegada a Balbec, chorando, sem consolo possível, junto de uma mala desfeita."


James Hart Dyke

Onde não se caminha, mas onde se rola

"A frieza involuntária desta mulher contrasta com a sua paixão confessada e reage necessariamente sobre o amante mais apaixonado. Essas ideias, que muitas vezes flutuam como vapores em redor das almas, determinam nelas uma espécie de doença passageira. Na doce viagem que dois seres empreendem através das belas regiões do amor, esse momento é como uma charneca a atravessar, uma charneca sem estevas, alternadamente húmida e quente, cheia de areias ardentes e cortada de pântanos que leva aos risonhos maciços de verdura vestidos de rosas onde se expande o amor e o seu cortejo de prazeres sobre tapetes de fina verdura. Muitas vezes o homem espiritual encontra-se dotado de um riso estúpido que lhe serve de resposta a tudo. O seu espírito está como que adormecido sob a glacial compressão dos seus desejos. E não é impossível que dois seres igualmente belos, espirituais e apaixonados falem primeiro dos lugares-comuns mais idiotas, até que o acaso, uma palavra, o tremor dum certo olhar, a comunicação duma faísca, os faça encontrar a feliz transição que os leva à vereda florida onde não se caminha, mas onde se rola, sem contudo descer. Este estado de alma é proporcional à violência dos sentimentos."


Fotografia daqui

Ris demasiado alto e vão supor que almoçámos de mais

"— Cala-te, senão não digo mais nada. Ris demasiado alto e vão supor que almoçámos de mais. Na quinta-feira passada, eu passeava sobre o terraço dos Feuillants, sem pensar em nada. Mas ao chegar à grade da Rua Castiglione, por onde contava ir-me embora, encontrei-me frente a frente com uma mulher que, se não me saltou ao pescoço, foi dominada, suponho, menos por respeito humano do que por um desses espantos profundos que prendem os braços e as pernas, descem ao longo da espinha dorsal e param na planta dos pés para vos fixar ao solo. Eu produzi muitas vezes efeitos desse género, uma espécie de magnetismo animal que se torna muito poderoso quando as relações são respectivamente entrelaçadas. Mas, meu caro, não era nem uma estupefacção nem uma rapariga vulgar. Moralmente falando, o seu rosto parecia dizer: «O quê? Eis-te, meu ideal, ser dos meus pensamentos e dos meus sonhos ao deitar e ao acordar. Como é que estás aí? Porquê esta manhã? Por que não ontem? Toma-me, pertenço-te, etc.!» «Bom, dizia a mim mesmo, mais uma!» Examinei-a então. Ah, meu caro, fisicamente falando, a desconhecida é o ser mais adoravelmente mulher que eu encontrei até hoje. Ela pertence a essa variedade feminina a que os Romanos chamavam fulva flava — a mulher de fogo. Em primeiro lugar, o que me impressionou, aquilo que ainda me tem preso, são os seus olhos amarelos como os dos tigres: um amarelo de ouro que brilha, ouro vivo, de ouro que pensa, de ouro que ama e quer absolutamente vir para o nosso bolso. 
— Nem nós conhecemos outra coisa, meu caro! — gritou Paul. Ela vem algumas vezes aqui. É a Rapariga dos olhos de ouro. Demos-lhe esse nome. É uma jovem com cerca de vinte e dois anos que eu vi aqui no tempo dos Bourbons, acompanhada de uma mulher que vale cem mil vezes mais do que ela."

segunda-feira

terça-feira

Estas honestas pessoas

"Com efeito, os rapazes de Paris não se parecem com os rapazes de nenhuma outra cidade. Dividem-se em duas classes: o jovem que tem alguma coisa e o jovem que não tem nada, ou, melhor, o jovem que pensa e o jovem que gasta, mas, compreenda-se bem, trata-se aqui apenas desses indígenas que levam em Paris uma vida deliciosamente elegante. Existem ainda outros jovens, mas esses são crianças que só muito mais tarde percebem a existência parisiense e são enganados por ela. Não especulam e estudam; cavam, como dizem os outros. Vêem-se ainda, finalmente, certos rapazes que se dedicam a uma carreira e a seguem simplesmente. São um pouco como Emílio de Rousseau, a carne do cidadão, e nunca frequentam a sociedade. Os diplomatas chamam-lhes, impolidamente, ingénuos. Ingénuos ou não, eles aumentam o número dessas pessoas medíocres sob o peso das quais a França se curva. Estão sempre presentes, sempre prontos a estragar os negócios públicos ou particulares com a colher chata da mediocridade, vangloriando-se sempre da sua impotência a que eles chamam honradez e bons costumes. Esta espécie de «prémios de excelência» social infesta a administração, o exército, a magistratura, as câmaras e a corte. Eles diminuem e vulgarizam o país, e constituem, de qualquer maneira, no corpo político, uma lista que o sobrecarrega e o torna plácido. Estas honestas pessoas chamam aos homens de talento imorais ou patifes. Se estes patifes fazem pagar os seus serviços, ao menos servem realmente. Quanto aos outros, prejudicam e são respeitados pela multidão mas, felizmente para a França, a juventude elegante estigmatiza-os sem cessar com o nome de pacóvios."



Estes na imagem são os outros, "les deux espèces de jeunes gens qui mènent une vie élégante". Também escreve sobre eles a seguir mas têm de ler o livro para saber.

sábado

"O mar é o caminho para a minha casa"

É bonito. Mesmo quando a casa fica na República das Bananas.

Daqui: the one and only antologia do esquecimento

Nude Jennifer Lawrence for Vanity Fair March 2015


Go Jenny go
Daqui

Nailed it so good

"O enfado de uma existência vazia, só pode mesmo ser recompensado com uma alegoria de histórias vazias, onde a vida só tem sentido quando apanhada de quatro na cama tomando mil chibatadas antes de voltar ao vazio que a levou às peias. Amortizar assim a tarefa de pensar, com ações de não ter que pensar, tem sido o exasperado recurso dos que imaginam pensar demais. As pessoas não sabem o que é pensar, porque nunca viveram a consciência de pensar. Estando apenas atulhadas de insignificâncias, imaginam com isso estar a pensar em demasia. Cercados por entulhos de informações inúteis que as impedem de avaliar o pensamento com critérios de qualidade que se distingue da quantidade. Iludem-se com a ideia de que andam pensando além do suportável."

Jajajaja 

Mr. Grey will see you now

Fazer um doutoramento ou a revolução

   "— E tu? — perguntou-me, pegando-me pelo braço. — Tu quê, meu velho?
    — Eu, nada — respondi. — Eu, aqui, como tradutor na Unesco, em Paris.
   Hesitou um momento, receoso de que aquilo que me ia dizer pudesse magoar-me. Era uma pergunta que, sem dúvida, estava havia tempo a queimar-lhe a língua.
   — É isso que queres ser na vida? Nada mais que isso? Todos os que vêm para Paris aspiram a ser pintores, escritores, músicos, actores, encenadores de teatro, fazer um doutoramento ou a revolução. Tu só queres isso, viver em Paris? Nunca o engoli, velhote, confesso-te.
   — Bem sei que não. Mas é a pura verdade, Paúl. Em miúdo, queria ser diplomata, mas era só com o fito de me mandarem para Paris. É isso que quero: viver aqui. Achas pouco?"


"Eu por Lily apaixonei-me como um bezerro, a forma mais romântica de uma pessoa se apaixonar  dizia-se também ficar embeiçado de todo  e, nesse Verão inesquecível, atirei-me três vezes a ela. A primeira, na segunda plateia do Ricardo Palma, esse cinema que ficava no Parque Central de Miraflores, na matiné de domingo, e ela disse-me que não, que ainda era muito nova para ter namorado. A segunda, na pista de patinagem que foi inaugurada precisamente nesse Verão ao pé do Parque Salazar, e disse-me que não, que precisava de pensar porque, embora gostasse um bocadinho de mim, os pais lhe tinham pedido que não tivesse namorado enquanto não acabasse o quarto ano do liceu e ela ainda estava no terceiro. E, a última, poucos dias antes do grande sarilho, no Cream Rica da Avenida Larco, enquanto bebíamos um milk-shake de baunilha, e, claro, outra vez que não, para que é que me havia de dizer que sim se estando como estávamos parecíamos namorados? Não nos punham sempre juntos em casa de Marta quando jogávamos às verdades? Não nos sentávamos juntos na praia de Miraflores? Não dançava ela comigo mais do que com qualquer outro nas festas? Para quê, então, me havia de dar formalmente o sim se Miraflores inteiro já nos julgava namorados? Com a sua carinha de modelo, uns olhos escuros e marotos e uma boquinha de lábios carnudos, Lily era a coqueteria em figura de mulher."

Filme - En la Ciudad de Sylvia

Não era o meu tipo...

"And with the intermittent coarseness that reappeared in him as soon as he was no longer unhappy and the level of his morality dropped accordingly, he exclaimed to himself: "To think that I wasted years of my life, that I wanted to die, that I felt my deepest love, for a woman who did not appeal to me, who was not my type!""

"Sammy falava, cada vez mais cordial e íntimo. Estava interessado no aspecto financeiro da escrita, mais do que na própria escrita. Quanto é que pagava uma certa revista, quanto é que pagava uma outra, e estava convencido de que a publicação de um conto dependia apenas de uma boa cunha. Na opinião dele, para conseguirmos publicar uma história, tínhamos de ter um irmão, um primo ou alguém do género no departamento editorial. Era inútil contradizê-lo, e nem cheguei a tentar, pois sabia que aquele tipo de argumento lhe era necessário, dada a sua falta de habilidade para a escrita."

Imagem daqui

quinta-feira

Ninguém ganha a guerra


Daqui: Dias Felizes
O blog foi desactivado!? :( 

terça-feira

Assim assim

"Provavelmente estamos todos mais ou menos assim assim na vida, dado que a existência é a arte do inacabado que a morte interrompe de súbito como uma piada de mau gosto, a maior parte das vezes na altura em que principiávamos a habituar-nos ao desconforto da cadeira dos dias pelo facto de confundirmos resignação com sabedoria e desinteresse com paciência."




Daqui: instagram (Diana Carvalho:)


domingo


Texto: anita {fragmento de Pitigrilli}
Imagem daqui

Don't let the fuckers get you down or steal the thrill of feeling young

“It’s dark because you are trying too hard. Lightly child, lightly. Learn to do everything lightly. Yes, feel lightly even though you’re feeling deeply. Just lightly let things happen and lightly cope with them. So throw away your baggage and go forward. There are quicksands all about you, sucking at your feet, trying to suck you down into fear and self-pity and despair. That’s why you must walk so lightly. Lightly my darling…”

Holidays are for decrapifying. 22 days are not enough given the amount of crap

quinta-feira

"— Odeio-te  disse ela. — Meu Deus, como te odeio!
Enquanto apanhava os cigarros, a noite e a zona fabril deserta pareciam estremecer sob o peso do ódio dela. Eu compreendia-a. Ela não odiava verdadeiramente Arturo Bandini; odiava, sim, o facto de ele não estar à altura das suas exigências. Queria amá-lo, mas não conseguia. Queria que ele fosse como Sammy: calado, taciturno, sombrio, um bom atirador, um bom empregado de balcão que a aceitava como empregada de mesa e nada mais. Saí do carro com um sorriso, sabendo que isso a magoaria.
 Boa noite  disse eu.  Está uma bela noite. Não me importo de ir a pé.
 Espero que não consigas chegar  disse ela.  Espero que te encontrem morto na sarjeta amanhã de manhã.
 Verei o que posso fazer  respondi.
Quando arrancou, escapou-se-lhe da garganta um soluço, um gemido angustiado. Uma coisa era certa: Arturo Bandini não servia para Camilla Lopez."


Nem sequer sabia pontuar em condições

  "Nessa noite, Camilla, embebedei-me com whiskey de setenta e oito cêntimos, e tu embebedaste-te com whiskey e amargura. E depois de ter desligado as luzes, nu à excepção de um sapato que iludiu todos os meus esforços, lembro-me de que te acolhi nos meus braços e dormi em paz no meio do teu choro, porém incomodado quando as tuas lágrimas tépidas me caíam nos lábios e o seu gosto salgado me fazia pensar naquele Sammy e no seu abominável manuscrito. A ideia de que ele te tinha batido! Aquele imbecil. Nem sequer sabia pontuar em condições."


quarta-feira

Leste Nietzsche, leste Voltaire, devias ter mais juízo

"Assim não pode ser, Arturo. Leste Nietzsche, leste Voltaire, devias ter mais juízo. Mas a razão não me ajudava. Podia tentar resolver o problema recorrendo à razão, mas isso não me era natural."


Não há nada sobre a Califórnia que eles não saibam já

"Em Los Angeles, os polícias não te prendem por vadiagem se usares uma camisa de pólo catita e uns óculos de sol. Mas, se tiveres sapatos sujos e uma camisola grossa semelhante às que se usam nas terras frias, vais parar à esquadra. Por isso, rapazes, arranjem uma camisa de pólo e uns óculos escuros, e sapatos brancos, se possível. Adoptem o estilo universitário. Seja como for, essa moda pega-se. Ao fim de algum tempo, depois de grandes doses de Times e de Examiner, também vós acabareis por vos render aos encantos do soalheiro sul. Comereis hambúrgueres o ano inteiro, vivereis em apartamentos e hotéis poeirentos e infestados de insectos, mas, dia após dia, o poderoso sol há-de brilhar num céu eternamente azul. As ruas estarão cheias de belas mulheres que jamais possuireis, as tépidas noites semitropicais exalarão o perfume dos romances que jamais vivereis, mas, ainda assim, estareis no paraíso, rapazes, na terra do sol.
   Quanto àqueles que ficaram lá na terra, podeis mentir-lhes à vontade, até porque eles odeiam e recusam a verdade, e, mais cedo ou mais tarde, também eles hão-de querer mudar-se para o paraíso. E não vale a pena tentar dissuadi-los, rapazes. Eles sabem muito bem como é a Califórnia do Sul. Ao fim e ao cabo, lêem os jornais, folheiam as revistas ilustradas que atulham os quiosques de todos os cantos da América. Já viram as casas das estrelas de cinema. Não há nada sobre a Califórnia que eles não saibam já."

Gif do filme "From Here to Eternity"

quinta-feira

" «Ho there! Wake up! The river in your dream may seem pleasant, but below it is a lake with rapids and crocodiles, the river is evil desire, the lake is the sensual life, its waves are anger, its rapids are lust, and the crocodiles are the women-folk.» "


Fui roubar ao blog Febre dos Fenos

"Era um homem muito belo, na força da idade. Não particularmente inteligente e, por isso mesmo, destinado a altos cargos, pela confiança que a mediocridade inspira."



sexta-feira

"Brossard and Ackley both had seen the picture that was playing, so all we did, we just had a couple of hamburgers and played the pinball machine for a little while, then took the bus back to Pencey. I didn't care about not seeing the movie, anyway. It was supposed to be a comedy, with Cary Grant in it, and all that crap. Besides, I'd been to the movies with Brossard and Ackley before. They both laughed like hyenas at stuff that wasn't even funny. I didn't even enjoy sitting next to them in the movies."


Tap-dancing all over the place

I got bored sitting on that washbowl after a while, so I backed up a few feet and started doing this tap dance, just for the hell of it. I was just amusing myself. I can't really tap-dance or anything, but it was a stone floor in the can, and it was good for tap-dancing. I started imitating one of those guys in the movies. In one of those musicals. I hate the movies like poison, but I get a bang imitating them. Old Stradlater watched me in the mirror while he was shaving. All I need's an audience. I'm an exhibitionist. "I'm the goddam Governor's son," I said. I was knocking myself out. Tap-dancing all over the place. "He doesn't want me to be a tap dancer. He wants me to go to Oxford. But it's in my goddam blood, tap-dancing." Old Stradlater laughed. He didn't have too bad a sense of humor. "It's the opening night of the Ziegfeld Follies." I was getting out of breath. I have hardly any wind at all. "The leading man can't go on. He's drunk as a bastard. So who do they get to take his place? Me, that's who. The little ole goddam Governor's son."


A festa é aqui, neste livro \o/

terça-feira

Vinho

"O desafio reside em saber como encerrar um dia como aquele. A sua mente ainda está sujeita a uma grande tensão nervosa devido à muita concentração que as interacções no escritório lhe exigiram. (...) Sente-se como se tivesse estado envolvido num jogo de computador que, impiedosamente, pôs os seus reflexos à prova, para a dada altura, subitamente, a ficha ser puxada da tomada na parede. Sente-se impaciente e inquieto, mas, ao mesmo tempo, exausto e fragilizado. Não se encontra em condições de lidar com nada que tenha algum significado. É claro que lhe é impossível concentrar-se na leitura de um livro com conteúdo, porque este lhe exigiria não só tempo, mas também um estado emocional claro e sereno em torno do texto, de modo a que as associações e ansiedades pudessem emergir e ser deslindadas. (...) Por causa desta combinação particular de cansaço e energia nervosa, a única solução que talvez resulte é a ingestão de vinho."

And...

sábado

Fazer coisas

"- O meu sonho sempre foi ter uma oficina.
- Mas uma oficina de quê?, perguntei eu.
- Uma oficina de tudo. Onde as pessoas pudessem vir para fazer coisas."

É lindo! (veio Daqui)


Imagem daqui: O Intelectual Brejeiro


segunda-feira

Learn

"People have to come to things in their own time. You have to learn when honesty is righteous and when honesty is nothing more than a parlor trick."



sábado

No dia em que George for enforcado

"Puseram mãos à obra com grande entusiasmo, pretendendo, evidentemente, demonstrar-me como se fazia. Não fiz comentários; limitei-me a aguardar. No dia em que George for enforcado, Harris passará a ser a pessoa com menos jeito para fazer malas deste mundo; e, olhando para o monte de pratos e chávenas, chaleiras e garrafas, boiões e empadas, lamparinas e bolos e tomates, etc., achei que a coisa não tardaria a tornar-se interessante.
    E assim foi. Começaram por partir uma chávena. Foi logo a primeira coisa que fizeram. Fizeram-no apenas para mostrar que eram capazes, para dar maior interesse à cena.
    Depois Harris arrumou a compota de morango em cima de um tomate e esmagou-o, e tiveram de retirar o tomate com uma colher de chá.
    Depois foi a vez de George, que pisou a manteiga. Sem nada dizer, fui sentar-me na beira da mesa, a observá-los. Isto irritou-os mais do que se eu tivesse dito alguma coisa. Senti isso. Ficaram tão nervosos e excitados que começaram a pisar coisas e a pô-las atrás deles e depois não as conseguiam encontrar quando as procuravam; e meteram as empadas no fundo, puseram-lhes coisas pesadas em cima e esmigalharam as empadas."



Wear the old coat and buy the new book

"Me chamam de um editorial
e me pedem que escreva
cinco folhas sobre a necessidade da leitura

Não pagam muito bem
e quem poderia pagar bem por um tema desses?
mas de qualquer maneira
preciso do dinheiro

assim que ligo meu computador começo a pensar
sobre a necessidade da leitura
mas não me ocorre nada

é algo que seguramente sabia quando era jovem
e lia sem parar
lia na Biblioteca Nacional
e nas bibliotecas públicas

lia nos cafés
e nas consultas ao dentista

lia no ônibus e no metrô

sempre andava olhando os livros

e passava as tardes nos sebos
até ficar sem um tostão nos bolsos

tinha que voltar para casa a pé

por ter comprado um Saroyan ou uma Virginia Woolf

Então os livros pareciam a coisa mais importante da vida

fundamentais

eu não tinha sapatos novos
mas não me faltava um Faulkner ou um Onetti
uma Katherine Mansfield ou uma Juana de Ibarbourou

hoje os jovens estão nas discotecas
não nas bibliotecas

eu fiz uma bela coleção de livros
ocupavam toda a casa

tinham livros em toda parte
menos no banheiro

que é o lugar onde estão os livros
da gente que não lê

as vezes tinha que seguir durante muito tempo
as pegadas de um livro que tinha saído no México
ou em Paris

uma longa pesquisa até consegui-lo

Nem todos valiam a pena
é verdade
mas poucas vezes me enganei
tive meus Pavese meus Salinger meus Sartre meus Heidegger
meus Saroyan meus Michaux meus Camus meus Baudelaire
meus Neruda meus Vallejo meus Huidobro
para não falar dos Cortázar ou dos Borges
sempre andava com anotações nos bolsos
dos livros que queria ler e não encontrava
ali andavam os Pedro Salinas e os Ambrose Bierce
a infame turba de Dante
mas agora não saberia dizer pra que maldita coisa
serve ter lido tudo isso

mais que para saber que a vida é triste

coisa que poderia saber sem precisar tê-los lido

Depois de cinco horas eu ainda não tinha escrito
uma só linha
assim que comecei a escrever esse poema
Chamei os do editorial
e disse creio que a única coisa para que serve
a leitura
é para escrever poemas

não posso dizer mais que isso

então me disseram que um poema não servia,
que precisavam de outra coisa."

Cristina Peri Rossi; trad. Nina Rizzi


Texto Daqui oh

quarta-feira

Memo to self(ies): ler 1 a 2 vezes ao dia antes das refeições

"These days I try to tell myself that what I feel is not very important. I've read this in several books now: that what I feel is important but not the center of everything. Maybe I do believe this, but not enough to act on it. I would like to believe it more deeply.
What a relief that would be. I wouldn't have to think about what I felt all the time, and try to control it, with all its complications and all its consequences. I wouldn't have to try to feel better all the time. In fact, if I didn't believe what I felt was so important, I probably wouldn't even feel so bad, and it wouldn't be so hard to feel better. I wouldn't have to say, Oh I feel so awful, this is like the end for me here, in this dark living-room late at night, with the dark street outside under the streetlamps, I am so very alone, everyone else in the house asleep, there is no comfort anywhere, just me alone down here, I will never calm myself enough to sleep, never sleep, never be able to go on to the next day, I can't possibly go on, I can't live, even through the next minute.
If I didn't believe what I felt was the center of everything, then it wouldn't be the center of everything, but just something off to the side, one of many things, and I would be able to see and pay attention to those other things that are equally important, and in this way I would have some relief.
But it is curious how you can believe an idea is absolutely true and correct and yet not believe it deeply enough to act on it. So I still act as though my feelings were the center of everything, and they still cause me to end up alone by the living-room window late at night. What is different now is that I have this idea: I have the idea that soon I will no longer believe that my feelings are the center of everything. This is a comfort to me, because if you despair of going on, but at the same time tell yourself that what you feel may not be very important, then either you may no longer despair of going on, or you may still despair of going on but not quite believe it anymore."


Estava no blog da Menina Limão

Rentes de Carvalho dixit

"Um livro, meus queridos, é bom e vale quando nos fala ao coração. Se vem com charanga, tambores e foguetório, deixá-lo passar."


Imagem: Fictious Dishes

sábado

Old Man in Rocker, Maine, 1967 - Berenice Abbott



You should go on until it is played out

"I understand, all right. The hopeless dream of being — not seeming, but being. At every waking moment, alert. The gulf between what you are with others and what you are alone. The vertigo and the constant hunger to be exposed, to be seen through, perhaps even wiped out. Every inflection and every gesture a lie, every smile a grimace. Suicide? No, too vulgar. But you can refuse to move, refuse to talk, so that you don’t have to lie. You can shut yourself in. Then you needn’t play any parts or make wrong gestures. Or so you thought. But reality is diabolical. Your hiding place isn’t watertight. Life trickles in from the outside, and you’re forced to react. No one asks if it is true or false, if you’re genuine or just a sham. Such things matter only in the theatre, and hardly there either. I understand why you don’t speak, why you don’t move, why you’ve created a part for yourself out of apathy. I understand. I admire. You should go on with this part until it is played out, until it loses interest for you. Then you can leave it, just as you’ve left your other parts one by one"
Um clássico, que estava nos rascunhos há anos. Adoro o Bergman, é o melhor a chapar texto nos filmes.


sexta-feira

Bolero do coronel sensível que fez amor em Monsanto

"Eu que me comovo
Por tudo e por nada
Deixei-te parada
Na berma da estrada
Usei o teu corpo
Paguei o teu preço
Esqueci o teu nome
Limpei-me com o lenço
Olhei-te a cintura
De pé no alcatrão
Levantei-te as saias
Deitei-te no banco
Num bosque de faias
De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste
Nem sequer gemeste,
Mordeste, abraçaste
Quinhentos escudos
Foi o que disseste
Tinhas quinze anos
Dezasseis, dezassete
Cheiravas a mato
À sopa dos pobres
A infância sem quarto
A suor, a chiclete
Saíste do carro
Alisando a blusa
Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa
Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão
Sobrancelha em asa
Disse: fiz serão
Ao filho e à mulher
Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher
Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada
Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado
Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada"

Foto daqui

Li há dias no Clube de Leitores e guardei. Hoje vi o vídeo. Também guardei este. Guardo muitas coisas, mas não gosto do feedly porque ainda não sei guardar com tags e tenho as receitas misturadas com a poesia e com a maquilhagem, assim não dá. 

"Whatever I am, you did it."
"There sat I, a faded being, under faded leaves."

terça-feira

Lição nº 1

"Na completa, sincera, entusiástica e cínica biografia de Paul Gauguin, a que vai ser possível escrever dentro de cinquenta anos, quando estiver morta toda a geração que o viu de perto — eu incluído — não deverá esquecer-se o papel de Pissarro. Dinamarquês nascido nas Antilhas, vendido pela família ao negocio, mesmo sem doutrina soube dominar os elementos do seu próprio desenho. Bem mais do que dividir cores, logo ao princípio Pissarro lhe ensinou como se foge à família, à fatalidade de ser comerciante ou homem de finanças, homem pago ou pagador, homem de balanços, homem pau-para-toda-a-obra — como se não é vendilhão."

Foto: Superbomba