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sábado

La fierté

"Pensa que está ao seu alcance ofender-me? Não sabe então com quem está a falar? Julga que a saliva envenenada de quinhentos dos homenzinhos seus amigos, amontoados uns contra os outros, conseguiria sequer babar os dedos dos meus augustos pés?"



As pessoas da sociedade 2

"— Lamento este contratempo — disse-me o senhor de Charlus. — Argencourt, bem-nascido mas mal-educado, diplomata mais que medíocre, marido detestável e mulherengo, velhaco como um personagem de uma peça, é um daqueles homens incapazes de compreender mas muito capazes de destruir coisas verdadeiramente grandes. Espero que a nossa amizade o venha a ser, se um dia vier a criar-se, e que o senhor me dê a honra de a manter tanto como eu ao abrigo dos coices de um desses burros que, por desocupação, falta de jeito ou maldade, esmagam o que parecia feito para durar. Infelizmente é por esse molde que, na sua maioria, são feitas as pessoas da sociedade."




terça-feira

É um excelente médico, digo eu

"É o seu mal, a sua sobreactividade nervosa. Se eu soubesse a maneira de a curar dela, bem evitaria fazê-lo. Basta-me dominá-la. Estou a ver em cima da sua mesa uma obra de Bergotte. Se se curasse do seu nervosismo, deixaria de gostar dela. Ora, poderia eu sentir-me no direito de trocar as alegrias que ela dá por uma integridade nervosa totalmente incapaz de lhas proporcionar?"







quinta-feira

Ser uma grande senhora

"No campo, a senhora de Marsantes era adorada pelo bem que fazia, mas sobretudo porque a pureza de um sangue onde há várias gerações só se encontrava o que de maior existe na história da França retirara da sua maneira de ser tudo o que a gente do povo chama "maneiras" e lhe conferira a perfeita simplicidade. Não receava beijar uma pobre mulher infeliz, e dizia-lhe que fosse buscar um carro de lenha ao solar. Era, dizia-se, a perfeita cristã. Estava empenhada em que Robert fizesse um casamento colossalmente rico. Ser uma grande senhora é representar o papel de uma grande senhora, isto é, por um lado, representar a simplicidade. É uma representação que custa extremamente caro, tanto mais que a simplicidade só deslumbra se os outros souberem que quem representa poderia não ser simples, isto é, que é rico. Disseram-me mais tarde, quando contei que a tinha visto: «Deve ter notado que ela foi deslumbrante.» Mas a verdadeira beleza é tão especial, tão nova, que não a reconhecemos pela beleza. Nesse dia apenas pensei que ela tinha um nariz pequenino, uns olhos muito azuis, o pescoço comprido e um ar triste."


Esta não é a senhora de Marsantes mas encontrei imagem de uma tal Castiglione que serve os efeitos ilustrativos e é uma bela personagem, look at that!


sexta-feira

Nada há mais agradável que sofrer aborrecimentos por uma pessoa que valha a pena

  "Na escada, ouvi atrás de mim uma voz que me interpelava:
  — Então é assim que o senhor me espera.
  Era o senhor de Charlus.
  — Importa-se de andar alguns passos a pé? — disse-me secamente quando chegámos ao pátio. — Caminharemos até eu encontrar um fiacre que me convenha.
  — O senhor quer falar comigo?
  — Ah, aí está, efectivamente, tinha certas coisas para lhe dizer, mas não sei bem se o farei. É certo que acho que elas poderiam ser para si o ponto de partida de inapreciáveis vantagens. Mas entrevejo também que elas introduziriam na minha vida, na minha idade, em que se começa a dar importância ao sossego, muitas perdas de tempo, muitos incómodos de toda a ordem; ora, pergunto a mim mesmo se valerá a pena eu sujeitar-me a tantas perturbações por sua causa, e não tenho o prazer de o conhecer o suficiente para me decidir. Em Balbec achei-o bastante medíocre, mesmo descontando a estupidez inseparável do personagem «banhista» e do uso de uma coisa chamada «alpargatas». E aliás talvez o senhor não tenha daquilo que eu poderia fazer um desejo suficientemente grande para eu me dar a tantos aborrecimentos, porque, repito-lhe com toda a franqueza, meu caro senhor, para mim não podem deixar de ser (repetiu martelando as palavras com força) aborrecimentos.
  Protestei que então era melhor não pensar nisso. Esta ruptura de negociações não pareceu agradar-lhe.
  — Esta cortesia nada significa — disse-me num tom duro.
  — Nada há mais agradável que sofrer aborrecimentos por uma pessoa que valha a pena. Para os melhores de nós, o estudo das artes, o gosto pelas antiguidades, pelas colecções, pelos jardins, não passam de ersatz, de sucedâneos, de álibis. No fundo do nosso tonel, como Diógenes, pedimos um homem. Cultivamos as begónias e podamos os teixos à falta de melhor, porque os teixos e as begónias se submetem. Mas preferíamos dar o nosso tempo a um arbusto humano, se tivéssemos a certeza de que valia a pena. Toda a questão está aqui; o senhor deve conhecer-se um pouco. E acha que vale ou não a pena?"

Einstein incorporando o personagem «banhista»

quinta-feira

Basta que o homem precise dela

"Apetecia-me responder-lhe que nesse almoço ignominioso só se falara de Emerson, de Ibsen, de Tolstoi, e que a moça tinha feito um sermão a Robert para só beber água. Para tentar levar algum bálsamo a Robert, cujo orgulho julgava ferido, procurei desculpar a amante. Não sabia que naquele momento, apesar da sua cólera contra ela, era a si próprio que censurava. Mesmo nas querelas entre um homem bom e uma mulher má, e quando a razão está toda de um lado, acontece sempre que há uma ninharia qualquer que pode conferir à mulher a aparência de não estar errada num ponto. E como a mulher põe de lado todos os outros pontos, basta que o homem precise dela e esteja desmoralizado pela separação para que o seu enfraquecimento o torne escrupuloso, para se recordar das censuras absurdas que lhe foram feitas e perguntar a si mesmo se não terão algum fundamento."




sexta-feira

Los nerviosos

"A senhora pertence a essa família magnífica e lamentável que é o sal da terra. Tudo o que conhecemos de grande vem-nos dos nervosos. Foram eles e não os outros que fundaram as religiões e compuseram as obras-primas. Nunca o mundo virá a saber tudo o que lhes deve e, sobretudo, o que eles sofreram para lho dar. Nós apreciamos as músicas puras, os quadros belos, mil delicadezas, mas não sabemos o que elas custaram aos que as inventaram, em insónias, em lágrimas, em gargalhadas espasmódicas, em urticárias, em asmas, em epilepsias, numa angústia de morte que é pior que tudo isso e da qual, minha senhora, talvez tenha conhecimento — acrescentou ele sorrindo para a minha avó —, porque, confesse, quando eu cheguei não estava muito tranquila. Julgava-se doente, talvez perigosamente doente. Deus sabe de que enfermidade acreditava descobrir sintomas em si. E não estava enganada, tinha-os. O nervosismo é um imitador de génio. Não há doença que ele não falsifique maravilhosamente. Ele imita sem tirar nem pôr a dilatação dos dispépticos, os enjoos da gravidez, a arritmia do cardíaco, a febre do tuberculoso. Capaz de enganar o médico, como é que não havia de enganar o doente?"


segunda-feira

Compasso para nada

"Muitas vezes há que descer até às pessoas que vivem à custa de outras, homens ou mulheres, para termos de procurar o móbil da acção ou das palavras aparentemente mais inocentes no interesse, na necessidade de viver. Qual é o homem que não sabe, quando uma mulher a quem vai pagar lhe diz: «Não vamos falar de dinheiro», que esta frase deve ser contada, como se diz em música, como um «compasso para nada», e que, se mais tarde ela lhe declara: «Desgostaste-me muito, escondeste-me muitas vezes a verdade, estou farta», deve interpretar a declaração do seguinte modo: «Há um outro protector que lhe oferece mais?» E isto é apenas a linguagem de uma cocotte, bastante próxima das mulheres da sociedade."


quinta-feira

Bastou-me vê-la com os lírios

  "— Começou porque na véspera houve uma espécie de ensaio que era uma coisa linda! — continuou ironicamente a senhora de Guermantes. — Imaginem que ela dizia uma frase, ou nem sequer isso, um quarto de frase, e parava; não dizia mais nada, e olhem que não estou a exagerar, durante cinco minutos.
  — Ena, ena, ena! — exclamou o senhor de Argencourt.
  — Com toda a delicadeza deste mundo permiti-me insinuar que aquilo talvez fosse causar algum espanto. E ela respondeu-me textualmente: «É sempre preciso dizer uma coisa como se estivéssemos nós a compô-la.» Se pensarem bem, é monumental, esta resposta!
  — Mas eu julgava que ela não era má a dizer versos — disse um dos dois rapazes.
  — Ela nem sabe o que isso é — respondeu a senhora de Guermantes. — De resto, não precisei de a ouvir. Bastou-me vê-la com os lírios! Percebi logo que ela não tinha talento quando vi os lírios!"


"Mas, no segundo dia, tive de ir dormir ao hotel. E sabia adiantadamente que era fatal ir encontrar lá a tristeza. Esta era como um aroma irrespirável que, para mim, desde que nascera, qualquer quarto novo exalava, quero dizer, qualquer quarto: naquele onde habitualmente morava não estava presente, pois o meu pensamento permanecia noutro sítio e em seu lugar mandava apenas o hábito. Mas não podia encarregar este criado menos sensível de tratar das minhas coisas num lugar novo, aonde chegava antes dele, aonde chegava sozinho, onde tinha de pôr em contacto com as coisas aquele «Eu» que só reencontrava com anos de intervalo, mas sempre o mesmo, que não crescera desde Combray, desde a minha primeira chegada a Balbec, chorando, sem consolo possível, junto de uma mala desfeita."


James Hart Dyke

sexta-feira

Senhoras Lerois no caminho? Guardo todas...

"— Ah, sim, eu sei  respondeu ela com um fingido desdém , a filha daqueles grandes comerciantes de madeiras. Sei que ela frequenta agora a sociedade, mas dir-lhe-ei que estou velha de mais para fazer novos conhecimentos. Conheci pessoas tão interessantes, tão amáveis, que acho que a senhora Leroi nada acrescentaria realmente ao que eu já tenho."




Quimera

"— Mas voltemos a si  disse-me  e aos meus projectos a seu respeito. Sabe que existe entre certos homens uma franco-maçonaria de que não posso falar-lhe, mas que neste momento conta nas suas fileiras quatro soberanos da Europa. Ora os próximos de um deles, que é o imperador da Alemanha, querem curá-lo da sua quimera. É uma coisa muito grave e pode trazer-nos a guerra. Sim, meu caro senhor, perfeitamente. O senhor conhece a história daquele homem que julgava ter numa garrafa a princesa da China. Era uma loucura. Curaram-no dela. Mas, mal deixou de estar louco, ficou estúpido. Há males de que se não deve procurar curar ninguém, porque são os únicos que nos protegem de outros mais graves."



quinta-feira

Conditio sine qua non

"não era porque a riqueza sem mais, a riqueza sem a virtude, fosse aos olhos da Françoise o bem supremo, mas a virtude sem a riqueza também não era o seu ideal. A riqueza era para ela como que uma condição necessária, sem a qual a virtude não teria mérito nem encanto."


Lembro-me da primeira vez que vi esta publicidade, e pensei: a riqueza é isto mesmo, comprar na Hermès e ter tempo (para cirandar no meio da natureza vestida de branco)

Insultar com todas as letras

    "– Podias olhar para outro lado – disse-lhe ele com um ar sombrio. – Sabes que esses bailarinos não valem a corda em cima da qual deviam andar para partirem o pescoço, e são gente que depois se vai gabar de que lhes prestaste atenção. De resto, bem estás a ouvir dizerem-te que vás para o camarim vestir-te. Vais atrasar-te outra vez."


1 - Esta é uma fotografia do Nijinski com umas linhadas por cima, um trabalho feito por alguém que eu vou tentar lembrar-me quem foi e depois escrevo aqui. 

2 - Ponho links no meu blog a encaminhar para o meu blog... Uma vez li uma coisa a dizer muito mal da Margarida Rebelo Pinto, que passava a vida a citar-se a si própria. Nunca mais me esqueci, mas não teve qualquer resultado prático.


I see...

"– Vim a sabê-lo – disse Bloch – pelo procurador de Sir Rufus Israels, que é amigo do meu pai e um homem absolutamente extraordinário. Ah, um homem bem curioso – acrescentou com aquela energia afirmativa, aquele tom de entusiasmo, que só se põem nas convicções que não se ganharam pessoalmente."




sexta-feira

"eu, que assimilava as coisas novas com dificuldade igual à facilidade com que abandonava as antigas,"

Eu a assimilar músicas novas