"— E tu? — perguntou-me, pegando-me pelo braço. — Tu quê, meu velho?
— Eu, nada — respondi. — Eu, aqui, como tradutor na Unesco, em Paris.
Hesitou um momento, receoso de que aquilo que me ia dizer pudesse magoar-me. Era uma pergunta que, sem dúvida, estava havia tempo a queimar-lhe a língua.
— É isso que queres ser na vida? Nada mais que isso? Todos os que vêm para Paris aspiram a ser pintores, escritores, músicos, actores, encenadores de teatro, fazer um doutoramento ou a revolução. Tu só queres isso, viver em Paris? Nunca o engoli, velhote, confesso-te.
— Bem sei que não. Mas é a pura verdade, Paúl. Em miúdo, queria ser diplomata, mas era só com o fito de me mandarem para Paris. É isso que quero: viver aqui. Achas pouco?"


