"Às vezes frequentava a sociedade, não por gosto, mas para obedecer às exigências da posição a que aspirava o marido. Sua voz e a perfeição de seu canto permitiam-lhe então recolher aplausos que quase sempre lisonjeiam uma mulher jovem: mas de que lhe serviam sucessos que ela não relacionava a sentimentos nem a esperanças?"
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sábado
segunda-feira
Preconceitos em matéria de arte e beleza
"O rosto de uma mulher jovem tem a calma, o polimento, o frescor da superfície de um lago. A fisionomia das mulheres só começa aos trinta anos. Até essa idade o pintor só encontra em seus rostos o rosa e o branco, sorrisos e expressões que repetem um mesmo pensamento, pensamento de juventude e amor, pensamento uniforme e sem profundidade; mas, na velhice, tudo na mulher se exprimiu, as paixões se incrustaram em seu rosto; ela foi amante, esposa, mãe; as expressões mais violentas da alegria e da dor acabaram por caracterizar, torturar seus traços, imprimindo neles mil rugas, todas com uma linguagem; e um rosto de mulher torna-se então sublime de horror, belo de melancolia, ou magnífico de calma; se é lícito prosseguir essa estranha metáfora, o lago seco deixa ver então os traços de todas as torrentes que o produziram; e o rosto envelhecido de mulher não pertence mais nem à sociedade, que, frívola, assusta-se ao perceber nele a destruição de todas as ideias de elegância a que está habituada, nem aos artistas vulgares, que nele nada descobrem, mas sim aos verdadeiros poetas, àqueles que têm o sentimento de um belo independente de todas as convenções sobre as quais repousam tantos preconceitos em matéria de arte e beleza."
Isabelle Huppert, aos 30, aos 40, aos que ela quiser (nesta foto deve ter 28)
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Honoré de Balzac - A Mulher de Trinta Anos
quarta-feira
Balzac queixando-se
"Mulheres, ideias, sentimentos, tudo se assemelha. Não há mais paixões, porque as individualidades desapareceram. As posições, os espíritos e as fortunas foram nivelados, e todos vestimos um traje negro como de luto pela França morta. Não amamos nossos iguais. Entre dois amantes, é preciso haver diferenças a apagar, distâncias a percorrer. Esse encanto do amor desapareceu em 1789! Nosso tédio, nossos costumes insípidos são o resultado do sistema político. Na Itália, pelo menos, tudo é bem marcado. As mulheres são ainda animais malfazejos, sereias perigosas, sem-razão, sem outra lógica que a de seus gostos, de seus apetites, e das quais devemos desconfiar como desconfiamos dos tigres..."
Esta ilustração chama-se Balzac.
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terça-feira
No entanto, se eu insistisse...
"Mas a marquesa logo adotou aquele ar afetuoso sob o qual as mulheres protegem-se contra as interpretações da vaidade. Essa atitude exclui qualquer segunda intenção e controla, por assim dizer, o sentimento, temperando-o nas formas da polidez. As mulheres ficam então o tempo que quiserem nessa posição equívoca, como numa encruzilhada que conduz igualmente ao respeito, à indiferença, ao espanto ou à paixão. Somente aos trinta anos uma mulher pode conhecer os recursos de tal situação, nela sabendo rir, gracejar, enternecer-se sem comprometer-se. Possui então o tato necessário para fazer vibrar num homem todas as cordas sensíveis, e para estudar os sons que obtém. Seu silêncio é tão perigoso quanto sua falta. Jamais adivinharemos se, nessa idade, ela é sincera ou falsa, se está brincando ou sendo de boa-fé em suas confissões. Após terem-nos dado o direito de lutar com ela, de repente, por uma palavra, por um olhar, por um daqueles gestos cuja força lhes é conhecida, elas encerram o combate, nos abandonam, e ficam donas de nosso segredo, livres para nos imolar por um gracejo, livres para se ocupar de nós, igualmente protegidas por nossa fraqueza e por nossa força. Embora a marquesa se colocasse, nessa primeira visita, num terreno neutro, ela soube conservar uma alta dignidade de mulher. Seus sofrimentos secretos ficaram pairando acima de sua alegria artificial como uma nuvem leve que cobre imperfeitamente o sol. Vandenesse partiu após ter experimentado nesse encontro delícias desconhecidas; mas ficou convencido de que a marquesa era dessas mulheres cuja conquista custa demasiado caro para que se possa querer amá-las."
Não sei que imagem usar aqui, mas talvez um gif da Anna Karina fique bem com tudo.
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domingo
La mode
"Para o desespero das mulheres, sua apresentação era impecável, e todas invejaram-lhe o corte do vestido, a forma de um corpete cujo efeito foi atribuído ao génio de uma costureira desconhecida, pois as mulheres preferem acreditar na ciência dos vestidos do que na graça e na perfeição daquelas que sabem usá-los."
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Todas essas reflexões se aplicam à história secreta de Júlia
"Não é verdade que há muitos homens cuja nulidade profunda é um segredo para a maioria das pessoas que os conhecem? Um posto elevado, um ilustre nascimento, importantes funções, um certo verniz de polidez, uma grande reserva na conduta ou os prestígios da fortuna são, para eles, como guardas a impedir que as críticas penetrem até sua íntima existência. Essas pessoas assemelham-se aos reis cuja verdadeira estatura, o carácter e os costumes jamais podem ser nem bem conhecidos nem justamente apreciados, porque são vistos de muito longe ou de muito perto. Essas figuras de mérito factício interrogam em vez de falar, têm a arte de colocar os outros em cena para evitar exporem-se diante deles; depois, com grande habilidade, puxam cada um pelo fio de suas paixões ou de seus interesses, e jogam assim com homens que lhes são realmente superiores, transformando-os em marionetes e julgando-os pequenos por os terem rebaixado até eles. Obtêm então o triunfo natural de uma ideia mesquinha, mas fixa, sobre a mobilidade dos grandes pensamentos. Assim, para julgar essas mentes vazias e pesar seus valores negativos, o observador deve possuir um espírito mais sutil que superior, mais de paciência que de alcance de visão, mais de argúcia e tato que de elevação e grandeza nas ideias. Todavia, por mais habilidade que esses usurpadores demonstrem defendendo seus pontos fracos, lhes é muito difícil enganar suas mulheres, suas mães, seus filhos ou o amigo da casa; só que essas pessoas conservam quase sempre o segredo sobre algo que diz respeito, de certo modo, à honra comum, e com frequência até o ajudam a impor à sociedade. Se, graças a tais conspirações domésticas, muitos tolos são tidos por homens superiores, em compensação muitos homens superiores são tidos por tolos, de modo que o Estado social tem sempre a mesma massa de capacidades aparentes. Imagine-se agora o papel que deve desempenhar uma mulher de espírito e de sentimento na presença de um marido desse tipo: não veremos existências cheias de dor e abnegação cujos corações repletos de amor e delicadeza nada poderia recompensar neste mundo? Que surja uma mulher forte nessa horrível situação: ela libertar-se-á por um crime, como fez Catarina II, não obstante chamada a Grande. Mas, como nem todas as mulheres estão sentadas num trono, a maioria condena-se a infelicidades domésticas que, por serem obscuras, não são menos terríveis. As que buscam neste mundo consolos imediatos apenas substituem seus males por outros quando querem permanecer fiéis a seus deveres, ou cometem faltas se violam as leis em proveito de seus prazeres. Todas essas reflexões se aplicam à história secreta de Júlia."
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sábado
Todos temos grandes pretensões à força de espírito
"Carlos de Vandenesse tinha pouco a lamentar, porém, em deixar Paris. As mulheres não produziam mais nenhuma impressão sobre ele, seja porque considerasse uma paixão verdadeira como algo absorvente demais na vida de um homem político, seja porque as mesquinhas ocupações de uma galanteria superficial parecessem-lhe demasiado vazias para uma alma forte. Todos temos grandes pretensões à força de espírito. Na França, nenhum homem, por medíocre que seja, admite ser tido simplesmente por espirituoso. Assim, Carlos, embora jovem (tinha apenas trinta anos), já havia filosoficamente se acostumado a ver ideias, resultados, meios, lá onde os homens de sua idade percebem sentimentos, prazeres e ilusões. Recalcava o calor e a exaltação natural dos jovens nas profundezas de sua alma que a natureza criara generosa. Procurava ser frio, calculista, empregar em boas maneiras, em formas amáveis, em artifícios de sedução, as riquezas morais que o acaso lhe dera; verdadeira tarefa de ambicioso; papel triste, empreendido com o objectivo de atingir o que hoje chamamos uma bela posição."
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terça-feira
"Ao luar percebeu a figura de Arthur, de pé, a três passos dela, com os olhos fixos na sua sege. Seus olhares encontraram-se. A condessa recuou vivamente para o fundo do carro, mas com um sentimento de medo que a fez palpitar. Como a maioria das moças realmente inocentes e sem experiência, ela via uma falta no amor involuntariamente inspirado a um homem. Sentia um terror instintivo, provocado talvez pela consciência de sua fraqueza diante de tão audaciosa agressão. Uma das armas mais fortes do homem é esse poder terrível de assediar uma mulher cuja imaginação naturalmente sensível assusta-se ou ofende-se com uma perseguição. A condessa lembrou-se do conselho da tia e resolveu permanecer durante a viagem no fundo de sua sege, sem sair dali."
Imagem daqui
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sábado
Father daughter
"– Pois bem, minha filha, escuta-me! As moças com frequência criam imagens nobres, deslumbrantes, figuras totalmente ideais, e forjam ideias quiméricas acerca dos homens, dos sentimentos, do mundo; depois atribuem inocentemente a um carácter as perfeições que sonharam, e entregam-se a isso; amam no homem que escolheram essa criatura imaginária; porém, mais tarde, quando não há mais tempo de livrar-se do infortúnio, a enganadora aparência que embelezaram, seu primeiro ídolo, transforma-se enfim num esqueleto odioso. Júlia, preferia saber-te apaixonada por um velho do que ver-te amando o coronel. Ah! se pudesses transportar-te dez anos adiante na vida, reconhecerias o valor da minha experiência. Conheço Vítor: sua alegria é uma alegria sem espírito, uma alegria de caserna; ele é perdulário e sem talento. É um desses homens que o céu criou para fazer digerir quatro refeições por dia, dormir, amar a primeira que aparece, e combater. Ele não entende a vida. Seu bom coração, pois ele tem bom coração, talvez o leve a dar seu dinheiro a um infeliz, a um companheiro; mas ele é negligente, mas ele não é dotado daquela delicadeza de coração que nos faz escravos da felicidade de uma mulher; mas ele é ignorante, egoísta... Há muitos mas."
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