"Pela primeira vez, há muito tempo, pensei na minha mãe. Julguei ter compreendido porque é que, no fim de uma vida, arranjara um "noivo", porque é que fingira recomeçar. Também lá, em redor desse asilo onde as vidas se apagam, a noite era como uma treva melancólica. Tão perto da morte, a minha mãe deve ter-se sentido liberta e pronta a tudo reviver."
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sábado
Tão perto da morte
terça-feira
A cela ficava cheia de todas essas caras femininas
"Os primeiros meses foram difíceis. Mas justamente o esforço que fui obrigado a fazer ajudou-me a passá-los. Atormentava-me, por exemplo, o desejo de uma mulher. Era natural, eu era um rapaz novo. Não pensava especialmente em Maria. Mas pensava tanto numa mulher, nas mulheres, em todas as que tinha conhecido um dia, em todas as circunstâncias em que as amara, que a cela ficava cheia de todas essas caras femininas e povoava-se com todos os meus desejos. Isto desequilibrava-me, de certo modo. Mas, por outro lado, fazia passar o tempo. Acabara por conquistar a simpatia do guarda que, à hora das refeições, acompanhava o moço da cozinha. O primeiro que me falou de mulheres foi ele. Disse que era a primeira coisa de que os outros se queixavam. Redargui que era como os outros, e que achava injusto esse tratamento. «Mas é precisamente para isso», disse ele, «que os prendem.» «Para isso?» «Pois claro, a liberdade é isso mesmo. A vocês, privam-vos da liberdade.» Nunca me lembrara de semelhante coisa. Aprovei-o: «É verdade», disse eu, «onde estaria então o castigo?» «Sim, vê-se que você compreende as coisas. Os outros não compreendem.»"
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