Mostrar mensagens com a etiqueta António Lobo Antunes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta António Lobo Antunes. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira

E a gente fica com uma admiração pelas pessoas

Mas diz que a doença…
… me tornou mais alegre. É a primeira vez que eu estou a falar nisto. Se um dia for comigo à sala de quimioterapia do Hospital de Santa Maria, não vê uma pessoa a chorar. É um hospital do Estado, há pessoas pobres, mas as pessoas sorriem, dizem «boa tarde», conversam, têm esperança. Devem sofrer muito, mas não são tristes. Nunca ouvi uma queixa. Foi uma grande lição. Quando estava a fazer radioterapia, no primeiro cancro (aquilo é uma sala enorme com gente à espera), estava lá um homem, vindo da província. Naquela altura ainda os podiam trazer de ambulância, agora não podem porque as câmaras não têm dinheiro, e as pessoas morrem… Era um senhor de oitenta e tal anos, de fatinho de vir ao médico, de uma ladeia do Alentejo. O fato estava cheio de nódoas, muito velho, não tinha gravata, e quando chamavam o nome dele, avançava como um príncipe. E eu nunca vi uma gravata tão bonita como aquele que ele não tinha. E a gente fica com uma admiração pelas pessoas, pelos portugueses. As pessoas são extraordinárias. A coragem, a dignidade. Sentia-me rodeado de príncipes quando lá estava, e pensava: «Eu não chego aos calcanhares destes tipos.» Então, comecei a pensar que não podia esmorecer, nem que seja em nome desta dignidade, desta coragem. Quando lá vou, vejo pessoas que não conheço de parte alguma, pessoas que ficam tão contentes com uma palavra. Sabe, antes de ser operado da primeira vez (foi uma operação muito comprida, de bastantes horas, porque tiraram o intestino e também o apêndice, a vesícula, aquilo já tinha apanhado várias coisas, bexiga e por aí fora), eu estava na sala para entrar, na maca, à espera da anestesia final e, de repente, sinto que me estão a dar a mão. Era o cirurgião. Não imagina como foi importante para mim. Ele ficou de mão dada comigo até eu adormecer. E, então, pensei: «Bolas, a função da literatura é esta: estar ali com uma mão apertada na nossa.» Um bom livro é isso. É uma coisa que nos dá a mão. E é uma fonte de alegria, de prazer. Há uma frase do Faulkner de que gosto muito. É quando ele diz: «Descobri que escrever é uma coisa extremamente nobre, faz-nos levantar sobre as patas de trás, e projectar uma enorme sombra.» É tão bonito, isto. E tão verdadeiro. Quando nós lemos um escritor de que gostamos, um livro de que gostamos, é isto que a gente sente. Ou ouvimos um músico. Ou vemos um quadro. Quando eu vejo um quadro de Rothko fico logo mais importente. E é isso que a literatura me tem dado nestes últimos tempos. Depois da doença, esta frase do Faulkner começou a fazer muito sentido para mim. «Faz-nos levantar sobre as patas de trás, e projectar uma enorme sombra.» É preciso admirar os escritores, é preciso amá-los. Eu teria imensa dificuldade em fazer crítica, porque, acho que não era capaz de dizer mal de um livro. Porque nós nos confundimos com o livro. Porque nós escrevemos para ser amados.


 Imagem: intao

terça-feira

Assim assim

"Provavelmente estamos todos mais ou menos assim assim na vida, dado que a existência é a arte do inacabado que a morte interrompe de súbito como uma piada de mau gosto, a maior parte das vezes na altura em que principiávamos a habituar-nos ao desconforto da cadeira dos dias pelo facto de confundirmos resignação com sabedoria e desinteresse com paciência."




Daqui: instagram (Diana Carvalho:)


sexta-feira

Bolero do coronel sensível que fez amor em Monsanto

"Eu que me comovo
Por tudo e por nada
Deixei-te parada
Na berma da estrada
Usei o teu corpo
Paguei o teu preço
Esqueci o teu nome
Limpei-me com o lenço
Olhei-te a cintura
De pé no alcatrão
Levantei-te as saias
Deitei-te no banco
Num bosque de faias
De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste
Nem sequer gemeste,
Mordeste, abraçaste
Quinhentos escudos
Foi o que disseste
Tinhas quinze anos
Dezasseis, dezassete
Cheiravas a mato
À sopa dos pobres
A infância sem quarto
A suor, a chiclete
Saíste do carro
Alisando a blusa
Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa
Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão
Sobrancelha em asa
Disse: fiz serão
Ao filho e à mulher
Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher
Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada
Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado
Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada"

Foto daqui

Li há dias no Clube de Leitores e guardei. Hoje vi o vídeo. Também guardei este. Guardo muitas coisas, mas não gosto do feedly porque ainda não sei guardar com tags e tenho as receitas misturadas com a poesia e com a maquilhagem, assim não dá. 

quinta-feira

"Os escritores são todos uns chatos, eu se fosse mulher não ia para a cama com nenhum."


Sim, e depois a mulher vê o escritor ali num canto, tão sozinho e chato, e diz: "I cannot wait to kill you with happiness"

Estava aqui: Delito de Opinião


Provavelmente quando nos tornamos tristes

"Nunca percebi quando se deixa de ser pequeno para se passar a ser crescido. Provavelmente quando a parente loira passa a ser referida, em português, como a desavergonhada da Luísa. Provavelmente quando substituímos os guarda-chuvas de chocolate por bifes tártaros. Provavelmente quando começamos a gostar de tomar duche. Provavelmente quando cessamos de ter medo do escuro. Provavelmente quando nos tornamos tristes. Mas não tenho a certeza: não sei se sou crescido."



1 - Nunca li nenhum livro do Lobo Antunes, a não ser algumas crónicas. Mas é um dos autores de quem me lembro melhor de certas frases. Este conceito do "quando nos tornamos tristes" tem-me acompanhado nos últimos meses (desde que li esta crónica), na alegria e na tristeza. Vem juntar-se à miserabilidade humana que aprendi com o Dostoievsky. 

2 - A tristeza dos outros é um aborrecimento. A nossa é profunda, bonita e até romântica. 




terça-feira

Imaginação não me falta

"Uma coisa é o amor, outra é a relação. Não sei se, quando duas pessoas estão na cama, não estarão, de facto, quatro: as duas que estão mais as duas que um e outro imaginam."
 
 
 texto daqui