sábado

Dois punhais afiados para conhecer o ouro

Madrugavam os dias e a máquina de destruição ainda por olear estava. Aproveitava-se ela para penetrar a minha alma, amolecendo-a (água mole em pedra dura tanto bate até que fura). A elevei a estatuto de miúda? Apenas considerei: comigo comunicava todos os dias. Não falhava nenhum sol. Tentava o meu grupo, aproximando-se. Olhar meu desviado em sinal de desdém, pois diz-se que quem sente e não se sente, se ressente.

A verdade
Claudicava a sua atenção aos demais aquando do meu despertar oral, tímido, ainda assim efectivo, chamativo, atractivo, hipnotizante. Quanto mais pedia ódio mais ela o acariciava, acalmando-o. Era ele que ela evocava nas saídas. O querer confiar. Numa noite digna de deuses em festa em casa de Dionísios dançava-mos pelas ruas enlameadas e luminosas.

Embriaguez
Aqui a mente obedece a um outro Senhor e mais poderoso, sensual e emotivo. A voz da razão entra em acção. Cada um seguia o caminho que a bebida lhe ditava. Esta não passa de um dispositivo para fazer emergir a verdadeira missão que temos aqui na Terra a realizar. Da qual já nos esqueceramos, de geração em geração; encarnação em encarnação; sepultura em sepultura. São demasiadas fases e barreiras a ultrapassar. A memória tem uma admirável capacidade de armazenamento de informação, mas tanta é claro que não. Apenas os deuses.

Cedera à vontade da razão e abraçava-me ao meu inimigo. O toque permitiu ao espírito uma análise karmática que resultou numa agradável surpresa.

Sucedera que lhe parecera que a
conhecera numa vida passada,
assim a reconhecera
ainda que a mal-tratada
não o fazia relembrar de nada.

Acompanhou-o, a ele e a um amigo, na desventurada noite em que o Governador dava uma festa nos seus "modestos" aposentos de conveniência psicadélica.

Fazia-se agora de difícil.
Passava-lhe a sinceridade da moca
mensageira.

Sóis e luas revezavam-se no altar das estrelas e novas saídas programadas. Quando elas não se faziam aparecer lá vinha ela com algo a propôr, só mesmo para a voltar a ter.
Por duas vezes se propôs a organizar...
Por duas vezes se expôs sem nada concretizar...
Uns anos dum amigo comum.
Poucas pessoas da sua "nova vida" fizeram o favor de aparecer.
Ele esteve
E ela foi lá ter.

Falava, como sempre foi, ela com ele. Depois de quatro (ou cinco) idas e voltas de textos, lá ela se dignou a comparecer no sítio previamente combinado. Ele descia as ruas de uma forma escura, desamparada e solitária. Escondia a embriaguez amarrando-a. Não a queria soltar, ainda que ela com a sua força dominadora se escapasse por ali e por acolá.
Primeira vez em que ela de facto reconheceu defeitos por ele e sua bebedeira desvendados. Há noites atrás. Na tal primeira. Primeiro e único abraço. Primeiro e único verdadeiro contacto espiritual. Os corpos aqui teceram pequenas suturas nos pontos de toque para se trocarem reminiscências que se faziam presentes. Tantas vidas juntos. Será? Ou tão pouco tempo juntos que amplificou esse possível amor existente? A falta sem dúvida.

Entrou em nova (ou tentou) moca para fazer aquilo que evitou ou esperou que fosse feito no dia do toque. Maus julgamentos.
Não.
Não exteriorizou bebedeira e zangou-se duma forma terrível e imperial.
Recusou – aceitando desta forma – a atenção que emanava dela.

Atenção
Por diversas ocasiões se fez sentir. Dois ou três consecutivos encontros que se desencontraram. Após ao insucesso de um deles, um pedido (resposta a um prévio dele. Um teste. Uma brincadeira. Um esclarecimento, também) de cinema da parte dela.
Insucesso.
Alterou-o e passou-o para o dia seguinte.
Insucesso.
(Ele não facilitava. Afinal a desconfiança ainda era ponto assente.)
Tempo.
As relações deterioraram-se de ligeira forma. O olhar dela era o único recurso agora. Diversos foram os olhares capturados pela sua essência. Olhares tristes, vazios, enfadonhos, mas sempre esperançosos e ternurentos.
Outras experiências dizem que no olhar o cego não deve confiar. Confiou, o estúpido relegado mortal. Convite para cinema: dele para ela. Poético deve-se dizer. Atrapalhada ela ficou. Assentiu de forma rápida e insistente.

Parêntesis
Recorria ela ao fenómeno da digitalização de informação. Do repentino e instantâneo. Acessível e visível a todos, potenciais voyeurs. "Invisibilidade" de identidade; capa para poder soltar sonhos e aspirações secretos para o exterior. Dizia-se ali que o coração, de facto, era um músculo. O cupido era um monstro insensível. Um jornal aberto. Um elefante que só trombas tinha. Aglutinação do nome com a faculdade própria de quem fala demais e desnecessariamente. Queria desenhar mas não o sabia. Um espectro invisível se tornara.
Pobre rapariga.
Após a única saída de ambos uma imagem que tudo resume: um homem e uma mulher trajados com vestes unifórmicas. Tipo Samurais. Mergulhados num grande tanque cheio de um branco líquido – a luz da vida. A vida – o líquido. Este jorrava incessantemente vindo de cima. Os seres abraçavam-se num ardente beijo que de facto faíscava; por detrás ódio mútuo; dois punhais afiados para conhecer o ouro.

Saída
Nada de certo. Muitas palavras pelo ar. Discussão. Sorrisos. Timidez recíproca. Insultos. Preocupação. Insinuação. Representação.
Queremos a vossa atenção!
Escrevia agora que não entendia, não entendia o porquê de bater em retirada. Triste?
Talvez.
Ressentida?
Bem provável.
Auto-intitulava-se de horrível, pois ele a criticara francamente a escolha de hediondo visual.
Agora rejeitava qualquer tipo de reconciliação e de aproximação. Ainda assim mantinha o seu defeito intacto.
Falavam-se.

No fim
Uma última e derradeira achega. Parecia andar sobre fortes e mágicos carris. Vincava o seu estar solitário como algo de bom.
Sim, publicamente...
Pois...algo andava mal, de diferente ao que referia.
"À carga" disse ele, mas ao quê? Nada aparecia-lhe à frente da sua fronha. Dizia-lhe ela que nunca lá estivera com ele nem em presença, nem em sentimento, nem em...olhar. Raptaram o objecto de ódio/amor. A experiência derradeira. Chegara ao fim? Estará de férias? O nosso cego Senhor Destino disso se ocupará. Só ele sabe o que os seus filhos devem ou não ver.
Eu diria que o meu olhar se abriu apenas para ver a pálpebra fechada.
Um falso despertar.
Mas sempre...
             sempre...
                   SEMPRE...
Uma experiência.




4 comentários:

Anónimo disse...

adorei o texto, entendo cada linha. O final pode ser refeito.

Beatrix Kiddo disse...

Anónimo, identifique-se sff

Cuca disse...

esse caderno é valioso, Beatrix

Beatrix Kiddo disse...

é mesmo :) e é bom partilhá-lo ao fim de tanto tempo de existência só em papel. Não vá perder tudo