"Não era da amante de Harry que tinha medo, mas da amiga. Quando Harry voltava para casa, não o fazia como o homem exausto pela paixão que recupera a tranquilidade e a rotina conjugais (Laurence teria sido capaz de lhe perdoar isso, tal como vira a mãe perdoar a Delarcher), mas como alguém que deixou a calma do porto para entrar num mar embravecido."
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sexta-feira
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Não é num lugar nem num clima qualquer da Terra
"– Porque é que me mandou um presente há uns anos? – perguntou-lhe ele de repente, não com coqueteria ou brusquidão, mas estranhamente angustiado. – Porquê essa loucura?
– Não sei. Tive vontade de o fazer.
– Que loucura! – repetiu Harry.
Desta vez, Ada não se perturbou. Olhou-o com uma expressão triste e pensativa.
– Não pode imaginar o que você tem representado para mim...
– Mas isso foi... lá na nossa terra... há muito tempo.
– Sim, mas lá... o que aconteceu ali é talvez mais importante do que você pensa, mais importante do que tudo o resto, do que a sua vida aqui, do que o seu casamento... Nós nascemos lá, é lá que estão as nossas raízes...
– Quer dizer, na Rússia?
– Não. Mais longe... num lugar mais profundo...
– Não é num lugar nem num clima qualquer da Terra – murmurou Harry –, mas uma maneira especial de amar, de desejar...
– O que é que desejou mais neste mundo?
– A mulher com quem me casei. E você?
– Conhecê-lo.
– Se o desejou com tanta força, tão em vão como eu desejei ter Laurence – disse Harry em voz baixa –, então lamento por si.
– Em vão? Porque? Obteve o que queria.
– Sim – respondeu ele com certa amargura –, como se possui um objecto reflectido num espelho, uma imagem, uma sombra que não se pode agarrar, nem...
Fez uma pausa
– Não faça caso. Eu peço o impossível. A verdade é que sou feliz."
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segunda-feira
"Quando Ada fez quinze anos e começou a ficar atraente, a tia começou a ter-lhe uma profunda aversão. Ada respondia com insolência; era a sua melhor arma desde a infância. Por mais estranho que parecesse, a única coisa que conseguia travar as iras da tia era uma réplica certeira e inteligente, tão impertinente quanto possível. Mas Rhaíssa não lhe ficava atrás; tinha sempre a língua afiada, e até agradecia à sobrinha a oportunidade de lhe dar uso, tal como o duelista profissional se alegra por ter diante de si um adversário à altura. Infelizmente, tinha o defeito habitual das mulheres: ficava inebriada com a vitória. Com ela, as discussões nunca acabavam; dotada de uma memória implacável, misturava os agravos antigos com os novos, o que a levava a repisar e a ampliar incansavelmente os mesmos assuntos, variando contudo os termos com uma verdadeira consciência artística, como a vespa que anda a zumbir à nossa volta depois de nos ter espetado o ferrão. A sobrinha fazia-lhe frente, mas refugiava-se sobretudo e cada vez mais numa vida interior tão profunda e estranha que nada a podia realmente ofender ou humilhar."
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