terça-feira

"Porque eu rezo que o Jack Daniel's escorregue tão facilmente como um beijo."


The most popular girls at school


"This picture was taken in 1998, at a time when people were just beginning to realise what "mean girls" were, and how brutal and cliquey and excluding they could be. I was on an assignment for the New York Times magazine, for a special issue about being 13. They sent me to a place in Minnesota called Edina, right in the heartland of the US. It was so interesting: in a book I did called Fast Forward, I had been taking a look at how kids grow up really quickly in Los Angeles. But in Minnesota, where life is supposedly not as fast-paced as in LA, I found kids who were equally precocious.

This group of girls were in the popular clique at their school. Popularity was very codified: all the kids knew you had to shop in three particular stores, and that you needed to be blond, thin and blue-eyed. The girls were on their way to their first big party of the seventh grade. I spent a lot of time inside one of their houses, photographing them doing their makeup and combing their hair. Then we came outside. In the beautiful late-afternoon light, they lined up and started posing – it was very much their idea rather than mine.

What I love is that each girl has a different personality in the image, and you can read into it what their status is in the clique. Hannah, the third girl in the purple, was actually deemed the most popular girl at school. But she told me later that she wasn’t actually sure about her group of friends: they could be mean, and people would get criticised if they didn’t look a certain way. Even if you’re in the place everyone wants to be in, as she was, there’s still a lot of pressure to keep up the grade. In a way, she felt it was bad to be popular."

segunda-feira

Saturday night cepos by Kerouac

"«Partes alegre e regressas vergado à tristeza», diz Tomás de Kempis referindo-se aos néscios que buscam o prazer como putos de liceu, que correm pelo passeio com grande alarido no sábado à noite em direcção ao carro enquanto ajeitam a gravata e esfregam as mãos num gesto de gozo antecipado, tudo isto para acordarem a gemer na manhã de domingo de olhos lacrimejantes em camas que a mamã terá que fazer de lavado."


terça-feira

Love all over Patti Smith's memoir Just Kids

"Robert always would tell me, "Nothing is finished until you see it""

"As the holidays approached, we agreed to work on books of drawings as a mutual gift. In some way, Robert was giving me an assignment to help me pull myself together, something creative on which to focus."



Este livro é maravilhoso e lembro-me dele muitas vezes. Adoro quando isto me acontece :)




L'Esprit du Temps

"Andamos na caça do pequeno ladrão e a destruirmo-nos uns aos outros. Assim, não nos aperceberemos da galinheira em que nos transformamos, com a raposa lá dentro, de dentes afiados e olhar cintilante."






sexta-feira

"Não era da amante de Harry que tinha medo, mas da amiga. Quando Harry voltava para casa, não o fazia como o homem exausto pela paixão que recupera a tranquilidade e a rotina conjugais (Laurence teria sido capaz de lhe perdoar isso, tal como vira a mãe perdoar a Delarcher), mas como alguém que deixou a calma do porto para entrar num mar embravecido."

quinta-feira

Protesters stand silently and read books in central Istanbul


A woman reads the philosophical essay The Myth of Sisyphus by French author Albert Camus in Taksim Square. The book focuses on the search for meaning in the absence of God.

Gabriel Garcia Marquez's Leaf Storm centres on a family in limbo following the death of a man passionately hated, yet tied to the family.

Turkish writer Tezer Ozlu's book, Old Garden - Old Love, is a collection of short stories.

Irvin David Yalom's historical novel When Nietzsche Wept is about a prominent physician, Josef Beuer, falling in love with Lou Salome, who was believed to have spurned Friedrich Nietzche's romantic overtures.

A man reads the Turkish book Resurrection Gallipoli 1915, written by Turgut Ozakman on the Battle of Gallipoli, while a woman beside him reads George Orwell's Nineteen Eighty-Four.

George Orwell's dystopic novel Nineteen Eighty-Four centralises around a police state with total government surveillance.

A man reads a Japanese novel, Hard-Boiled Wonderland and the End of the World, by Haruki Murakami - while another woman enjoys Orwell's Nineteen Eighty-Four, a popular choice of the Taksimites.

One woman reads The Speech, which is the text of of a speech delivered by Turkey's first president, Mustafa Kemal Ataturk, at an assembly in 1927 - while another woman (right) reads a biography of Ataturk.

A woman reads The Metamorphosis by Franz Kafka, a darkly absurdist novel about a travelling salesman who turned into a giant bug.

A man reads The Criss of the Modern World, a critique of the modern world from the point of view of traditional metaphysics, by French author Rene Guenon.

A man reads Three Days with my Mother, a book about a novelist with writer's block, by Belgian author and director Francois Weyergans

Via rui.zink (original daqui )

Pensava no preço que a vida cobra por bens insignificantes

"Sabia por experiência que, quando temos os nervos em franja, o melhor remédio é o trabalho. É preciso a gente sentar-se à mesa e obrigar-se, custe o que custar, à concentração numa ideia qualquer. Tirou da sua pasta vermelha um caderno em que fizera o esboço de um pequeno trabalho de compilação, concebido para o caso de se aborrecer na Crimeia. Sentou-se à mesa e, logo que começou a elaborar o resumo, pareceu que lhe voltava o estado pacífico, submisso e indiferente. O resumo levou-o, até, a reflexões sobre a vaidade humana. Pensava no preço que a vida cobra por bens insignificantes ou muito vulgares que dá à pessoa. Ele, Kóvrin, por exemplo, para lhe ser dada uma cátedra quase aos quarenta anos, para ser um professor catedrático vulgar e expor numa linguagem mole, enfadonha e pesada ideias banais e ainda por cima alheias – numa palavra, para alcançar a posição de um cientista medíocre, precisou de estudar quinze anos; trabalhar dia e noite, sofrer de uma grave doença mental, ter um casamento infeliz e fazer muitas asneiras e injustiças, de que seria mais agradável nunca se lembrar. Kóvrin tinha agora a plena consciência de ser medíocre e de bom grado se resignava com o facto, porque, na sua opinião, cada qual devia estar satisfeito com o que era."





"A feli­ci­dade con­siste em ser-se um des­gra­çado que se sente feliz".


Kubrick and daughter on the set of The Shining.
The only person who thinks this photo is about Jack Nicholson is Jack Nicholson.
-Stanley Kubrick

Texto daqui: escreveretriste (é um post da Maria João Freitas sobre um livro chamado Greguerías)
Imagem daqui: tumblr

sexta-feira

Não é num lugar nem num clima qualquer da Terra

 "– Porque é que me mandou um presente há uns anos? – perguntou-lhe ele de repente, não com coqueteria ou brusquidão, mas estranhamente angustiado. – Porquê essa loucura?
  – Não sei. Tive vontade de o fazer.
  – Que loucura! – repetiu Harry.
  Desta vez, Ada não se perturbou. Olhou-o com uma expressão triste e pensativa.
  – Não pode imaginar o que você tem representado para mim...
  – Mas isso foi... lá na nossa terra... há muito tempo.
  – Sim, mas lá... o que aconteceu ali é talvez mais importante do que você pensa, mais importante do que tudo o resto, do que a sua vida aqui, do que o seu casamento... Nós nascemos lá, é lá que estão as nossas raízes...
  – Quer dizer, na Rússia?
  – Não. Mais longe... num lugar mais profundo...
  – Não é num lugar nem num clima qualquer da Terra – murmurou Harry –, mas uma maneira especial de amar, de desejar...
  – O que é que desejou mais neste mundo?
  – A mulher com quem me casei. E você?
  – Conhecê-lo.
  – Se o desejou com tanta força, tão em vão como eu desejei ter Laurence – disse Harry em voz baixa  –, então lamento por si.
  – Em vão? Porque? Obteve o que queria.
  – Sim – respondeu ele com certa amargura –, como se possui um objecto reflectido num espelho, uma imagem, uma sombra que não se pode agarrar, nem...
  Fez uma pausa
  – Não faça caso. Eu peço o impossível. A verdade é que sou feliz."

Fotografia: Daqui (via)

quarta-feira

Wendeed

"We read, we travel, we become."


Fotografia: Nirrimi

segunda-feira

"Quando Ada fez quinze anos e começou a ficar atraente, a tia começou a ter-lhe uma profunda aversão. Ada respondia com insolência; era a sua melhor arma desde a infância. Por mais estranho que parecesse, a única coisa que conseguia travar as iras da tia era uma réplica certeira e inteligente, tão impertinente quanto possível. Mas Rhaíssa não lhe ficava atrás; tinha sempre a língua afiada, e até agradecia à sobrinha a oportunidade de lhe dar uso, tal como o duelista profissional se alegra por ter diante de si um adversário à altura. Infelizmente, tinha o defeito habitual das mulheres: ficava inebriada com a vitória. Com ela, as discussões nunca acabavam; dotada de uma memória implacável, misturava os agravos antigos com os novos, o que a levava a repisar e a ampliar incansavelmente os mesmos assuntos, variando contudo os termos com uma verdadeira consciência artística, como a vespa que anda a zumbir à nossa volta depois de nos ter espetado o ferrão. A sobrinha fazia-lhe frente, mas refugiava-se sobretudo e cada vez mais numa vida interior tão profunda e estranha que nada a podia realmente ofender ou humilhar."




They say

"They say living well is the best revenge, but sometimes writing well is even better."


Learn lightness

"Let there be no mistake: Tereza did not wish to take revenge on Tomas; she merely wished to find a way out of the maze. She knew that she had become a burden to him: she took things too seriously, turning everything into a tragedy, and failed to grasp the lightness and amusing insignificance of physical love. How she wished she could learn lightness! She yearned for someone to help her out of her anachronistic shell."


Edward Hopper - A Woman in the Sun

Boulevards of broken dreams

 "Você está com uma pessoa completamente desconhecida num quarto de hotel, e você conta para ela o que nunca contou para ninguém. Você e essa pessoa, em coisa de cinco minutos, têm a intimidade, a proximidade, que eu busquei num esforço de mais de trinta anos, numa espécie de quarto ao lado. O dos apartamentos montados e com criança na sala.
  Eu ia embora porque reconhecia meu engano.
  Tinha procurado o que eu queria no lugar errado. Tinha buscado a intimidade que eu queria onde ela não estava. Com mais de sessenta anos, não me via cooptando surfistas para motéis baratos. Mas, pelo menos, ao ir embora, me poupava de constatar, todos os dias, ao dizer bom-dia a Paulo, o tamanho do meu engano de toda uma vida."


O caminho para a distância

"Paulo desceu, no banco de carona, as curvas da avenida Niemeyer, como quem desce o caminho para uma riviera francesa, uma ilha grega, um país estrangeiro, ele estava indo para o país dos homens felizes, os que nascem de novo a cada dia."


Foto: Sophie Delaporte

domingo

Like the most banal of women

  "She had an overwhelming desire to tell him, like the most banal of women, Don't let me go, hold me tight, make me your plaything, your slave, be strong! But they were words she could not say.
   The only thing she said when he released her from his embrace was, 'You don't know how happy I am to be with you.' That was the most her reserved nature allowed her to express."

Bonjour tristesse. C'est dimanche

Those years were more attractive in retrospect than they were when he was living them

 "He paid the bill, left the restaurant and started walking through the streets, his melancholy growing more and more beautiful. He had spent seven years of his life with Tereza, and now he realized that those years were more attractive in retrospect than they were when he was living them.
  His love for Tereza was beautiful, but it was also tiring: he had constantly had to hide things from her, sham, dissemble, make amends, buck her up, calm her down, give her evidence of his feelings, play the defendant to her jealousy, her suffering, and her dreams, feel guilty, make excuses and apologies. Now what was tiring had disappeared and only the beauty remained."



sábado

How Wordswoth came to write poetry

"De Quincey tells an interesting story about Wordsworth. He had asked Wordsworth how he came to write poetry, and Wordsworth's answer was not satisfactory. But later in the day, they went to meet the mail cart, which was coming from Keswick. Wordsworth knelt down with his car to the ground to listen for its rumble; When he heard nothing, he straightened up, and his attention was caught by an evening star, which suddenly appeared to him to be intensely beautiful. Wordsworth said: "Now I can explain to you how I come to write poetry. If ever I am concentrating on something that has nothing to do with poetry, and then I suddenly relax my attention, whatever I see when I relax appears to me to be beautiful."


Wordsworth é o melhor nome para um poeta
" –  Não é neste sentido que estou a falar. Pergunto: o que será do pomar quando eu morrer? Sem mim, não vai aguentar nem um mês no estado em que o vês agora. O segredo do êxito não consiste em o pomar ser grande e ter muitos trabalhadores, mas no gosto que eu tenho pelo meu ofício, estás a entender? Gosto talvez mais do meu trabalho do que de mim. Olha para isto: faço tudo com as minhas próprias mãos. Trabalho de manhã à noite. Faço toda a enxertia, as podas também faço eu, também planto, faço tudo eu. Quando me ajudam fico invejoso e irrito-me até à grosseria. Todo o segredo está no amor, ou seja, no olhar atento do dono, nas mãos do dono, a um ponto tal que, se vou visitar alguém e fico lá uma horita a tomar chá, tenho apertos de coração, não estou bem: tenho medo que aconteça alguma coisa ao pomar. Ora, quando eu morrer, quem vai cuidar dele? Quem vai trabalhar? O jardineiro? Os jornaleiros? Achas? Ouve então o que tenho para te dizer, querido amigo: o inimigo principal do nosso trabalho não é a lebre nem o bicho, nem a geada, mas os estranhos."


quinta-feira

"Depois de Carol ter saído, enquanto deitava para o lixo um grande número de lenços de papel usados e ajeitava as almofadas do sofá, Symons comentou que a ilusão mais comum e prejudicial que assolava os que iam falar com ele era a noção de que deviam, de uma maneira qualquer e no decurso normal dos acontecimentos, ter intuído - muito antes de terem concluído as suas licenciaturas, constituído família, comprado casas e chegado ao topo da carreira em escritórios de advogados - o que deviam ter feito das suas vidas da maneira mais adequada. Sentiam-se atormentados pela noção residual de que, devido a qualquer erro ou estupidez da sua parte, teriam passado ao lado da sua verdadeira «vocação»."


Whiny Hannahs, the secret to happiness requires us to lower our expectations

"Deixei a empresa de Symons com uma nova percepção da crueldade irreflectida, discretamente presente na magnânima presunção burguesa que nos leva a acreditar que todos podemos encontrar a felicidade através do trabalho e do amor. Não se trata da questão de essas duas entidades serem incapazes, invariavelmente, de nos proporcionar um sentido de realização pessoal, mas sim, e apenas, do facto de quase nunca o fazerem. E quando uma excepção é interpretada erroneamente como uma regra, os nossos infortúnios individuais, em vez de nos parecerem aspectos quase inevitáveis da vida, pesar-nos-ão como maldições em particular. Ao negar o lugar natural reservado à ansiedade e ao erro na condição humana, a ideologia burguesa nega-nos a possibilidade de consolação colectiva pelos nossos casamentos turbulentos e pelas nossas ambições por explorar, condenando-nos a sentimentos solitários de vergonha e tormento por termos falhado teimosamente em tornarmo-nos quem somos."



segunda-feira

"Nada há pior que o contraste entre o esplendor natural da vida interna, com as suas Índias naturais e os seus países incógnitos, e a sordidez, ainda que em verdade não seja sórdida, de quotidianidade da vida. O tédio pesa mais quando não tem a desculpa da inércia. O tédio dos grandes esforçados é o pior de todos. Não é o tédio a doença do aborrecimento de nada ter que fazer, mas a doença maior de se sentir que não vale a pena fazer nada. E, sendo assim, quanto mais há que fazer, mais tédio há que sentir."


Foto daqui






sexta-feira

She thinks

"Well I'm sure that I could be a movie star
If I could get out of this place"


Os sítios, as oportunidades, as oportunidades de uns sítios e a falta de oportunidades dos outros sítios, e o que nos tornamos por termos ficado neste sítio, e o que seríamos se estivéssemos num outro sítio. Acho tudo uma treta e cada um de nós faz o sítio. Amanhã acharei que este sítio não nos merece. Depois vou achar que nunca se pode gerar uma "estrela de cinema" num sítio onde as pessoas parecem todas assim. Não há feira do livro no Porto este ano, então fiquei assim neste estado de revolta, vou ali bater com a cabeça na parede e apanhar sol.

Jean Béraud - The Drinkers

domingo

She talked to me about her life fucking Saudi princes, having orgies with CIA agents, and the truth about men who pay for sex.

"But I’m semi confused because for the guys it’s like — you’re good-looking, you’re successful, you’re rich, so why can’t you just fuck someone without having to pay them? Are they just awful people?

No, they’re usually fine. They’re just too busy. And they have standards. It’s hard to just meet someone at a bar who’s hot and smart and who you can have an interesting conversation with, who also wants to fuck you on the first night."


Now this was shocking. "I want it all and I want it now" mood.

The Interview

Gif from Sleeping Beauty (I've just watched the movie. I'm not sure about it, tomorrow I'll know)

Don't let Manic Pixie Dream Girls ruin your sex life!

"Zooey Deschanel led me to believe that guys would want to go out with me if I dressed like a menopausal librarian, when I probably would've gotten laid more if I'd followed my instincts and dressed like a total slut."


This is funny to read (but after being funny is sad because female insecurity on what to wear to get laid or to  get a boyfriend is always a sad matter)

quinta-feira

Through all kinds of weather

"O mundo é tão vasto, tão complicado, tão repleto de maravilhas e surpresas que a maioria das pessoas leva alguns anos para começar a perceber que é também irremediavelmente quebrado. A esse período de pesquisa chamamos “infância”.

Segue-se um programa de investigação reiterada, quase sempre involuntária, sobre a natureza e os efeitos de mortalidade, entropia, coração partido, violência, fracasso, covardia, hipocrisia, crueldade e sofrimento, cujas histórias e amargas lições o pesquisador aprende de cor. Ao longo do caminho, ele ou ela vai descobrindo que o mundo está quebrado até onde alcança a memória de qualquer um, e luta para conciliar tal fato com a pontada de nostalgia cósmica que, de tempos em tempos, agita-se em seu coração: uma sugestão de glória extinta, de inteireza perdida, uma memória do mundo antes de se quebrar. Ao momento em que essa pontada se manifesta pela primeira vez chamamos “adolescência”. O sentimento assombra as pessoas pelo resto da vida.

Todo mundo, cedo ou tarde, é submetido ao aprendizado da quebra. A questão passa a ser então: o que fazer com os pedaços? Há quem se abanque em sua pilha local de escombros e toque a vida assim mesmo, beduínos criando suas cabras à sombra de gigantes em ruínas. Outros se põem a quebrar o que resta do mundo em cacos cada vez menores e mais cortantes, chutando pilhas de destroços como crianças a correr entre montes de folhas secas. E algumas pessoas, passando entre os pedaços dispersos desse grande quebra-cabeça em desalinho, começam a colher uma peça aqui e outra ali, com uma ideia vaga, mas irresistível, de que algo talvez possa ser feito para colar aquilo de novo.

Esse plano apresenta de imediato duas dificuldades. Em primeiro lugar, jamais tivemos mais do que um vislumbre, através de pálpebras semicerradas, da gravura na tampa da caixa do quebra-cabeça. Além disso, por mais diligentes que sejamos na coleta de peças em nosso caminho, nunca juntaremos nem perto do suficiente para terminar o trabalho. O máximo que podemos ter esperança de lograr com nosso punhado de cacos resgatados – a safra agridoce da observação e da experiência – é construir um pequeno mundo só nosso. Uma maquete daquele misterioso original não quebrado que mal recordamos. É claro que os mundos que construímos com nosso estoque de fragmentos não têm como passar de aproximações parciais e imprecisas. Como representações da plenitude perdida que nos assombra, só podem ser fracassos previsíveis. Em seu próprio fracasso, porém, em suas falhas e imprecisões, talvez ainda sejam mapas fiéis, maquetes acuradas deste mundo belo e partido. A essas maquetes chamamos “obras de arte”."


Ligação partilhada pela Revista Ellenismos
Artigo Original no The New York Review of Books

quarta-feira

Era feriado

"– Tu eras a pessoa mais antiga que eu jamais conheci. Eras a monotonia de meu amor eterno, e eu não sabia. Eu tinha por ti o tédio que sinto nos feriados. O que era? era como a água escorrendo numa fonte de pedra, e os anos demarcados na lisura da pedra, o musgo entreaberto pelo fio d’água correndo, e a nuvem no alto, e o homem amado repousando, e o amor parado, era feriado, e o silêncio no vôo dos mosquitos. E o presente disponível. E minha libertação lentamente entediada, a fartura, a fartura do corpo que não pede e não precisa."






sexta-feira

"You know I have friends who used to laugh at me when I said we have to create a relationship. They thought relationship is a miracle, it just happens, it comes, we find it, and there it is. But it’s not true. I never found that to be true. One friend was amazed at things that happened in a relationship over the years. And I said: "Yes, we created that. This friendship was created with talking, with struggle, with crises." So wait until you feel right within yourself, and then you’ll feel right towards others."


Foto: Malick Sidibé
Quanto à música: I want that one

"A true poet does not bother to be poetical. Nor does a nursery gardener scent his roses."


Com que idade percebeu que falhou na vida?

" –  Tu pareces-me muito calmo em matéria de política.
  –  Efeitos da idade  disse o advogado.
E resumiram as respectivas vidas.
Ambos tinham falhado, tanto o que tinha sonhado com o amor como o que tinha sonhado com o poder. Qual a razão disso?
  –  Talvez a falta de uma linha recta  disse Frédéric
 –  Para ti, pode ser que seja. Eu, pelo contrário, pequei por excesso de rectidão, sem ter em conta mil coisas secundárias, mais fortes do que tudo. Eu tinha lógica a mais, e tu sentimento.
Depois, acusaram o acaso, as circunstâncias, a época em que haviam nascido."



E os Jefferson Airplane, após três semanas no Chelsea (onde se cruzaram com a Patti Smith, como a própria conta no livro), saem-se com esta maravilha

domingo

"Christy rolled her eyes and sighed a sigh."


sexta-feira

"No terceiro andar há uma pensão, dizem que imoral, mas isso é como toda a vida."



Sei de cor o teu cabelo sei o champô a que cheira

"Leitor
Já te aconteceu respirar
Em lenta degustação do eu acentrado
Essa pedra de incenso que enche um templo
Ou a alfazema entranhada num lenço?

É de facto um encanto que do fundo mágico nos fascina
Instilando no presente um passado ido Faz-nos amantes
A colher a exquise flor do recuerdo
Sobre um corpo amado

Somos sentidos ou lembrados?

Dos seus cabelos fartos e elásticos
Autêntico saquinho de cheiros
Um odor que sobe subia selvagem e inteiro
E dos vestidos musselina ou veludo
Impregnados do seu corpo capricho
Se desprendia desprende um cheiro forte a epiderme de bicho"





terça-feira

"Frequentou a sociedade, e teve ainda outros amores. Mas a recordação permanente do primeiro tornava-os insípidos; e, depois, a veemência do desejo, a própria flor da sensação estava perdida. As suas ambições espirituais tinham igualmente diminuído. Anos passaram; e ele suportava a inacção da sua inteligência e a inércia do seu coração."


Roubei esta imagem de um blog mas não me lembro de qual.

"O meu isolamento não é uma busca de felicidade, que não tenho alma para conseguir; nem de tranquilidade, que ninguém obtém senão quando nunca a perdeu  mas de sono, de apagamento, de renúncia pequena."




quarta-feira

"A minha vontade neste momento era a de escrever a letra da minha vida que encaixasse na melodia da vida dos outros. Era uma junção feliz. Assim o que quer que fosse que eu dissesse era um deleite para qualquer ouvido. A melodia teria de ser perfeita na sua simplicidade e crua no seu ataque, mas disso encarregar-se-ia a minha voz: de descompassar a ordem das coisas, de arreliar a paz interior do mais pacífico dos mortais. Seria como se Diónisos encontrasse Apolo e dançassem num fim de tarde húmido e escarlate por entre os densos e escassos raios de sol que pintam a foz de um rio do pantanal. Esse era eu no meu sonho."


Foto: Lúcia Campinho

Evento (quem tem um cartaz bonito)

segunda-feira

Simplicity is a difficult task

"Como muitos intelectuais, ele não era capaz de dizer de uma maneira simples as coisas simples. Achava para cada uma um qualificativo precioso, e depois generalizava. Albertine, que não gostava muito de que se preocupassem com o que fazia, aborrecia-se por, depois de ter torcido um pé e ficado imobilizada, Bloch lhe ter dito: «Está reclinada na sua cadeira de repouso, mas por ubiquidade não pára de frequentar simultaneamente uns vagos golfes e uns avulsos ténis.»"









A tela do computador não tem a calma da página impressa

Você argumenta que, enquanto o livro impresso originou uma evolução nos hábitos de leitura (da leitura em voz alta para a silenciosa, mais reflexiva), a internet favorece "uma forma mais primitiva de leitura". Por quê? 

A leitura não é uma habilidade nata nos humanos, como a fala, por exemplo. Temos que aprender a ler, e por isso as ferramentas que usamos para ler vão influenciar a qualidade de nossa leitura. O livro impresso, como tecnologia, nos protege de distrações e foca nossa atenção nas palavras do autor, no argumento ou na história. Estimulando a atenção e a calma, a página impressa encoraja uma forma mais profunda de leitura, na qual somos capazes de usar o máximo de nossa imaginação e nossa habilidade interpretativa para compreender o texto. A tela do computador não tem a calma da página impressa. As palavras do autor são forçadas a competir com outros estímulos que chegam através do computador. O leitor distraído não lê com profundidade; ele passa os olhos no texto, lê na diagonal. A leitura se torna um simples ato de decodificação, em vez de um sofisticado ato de interpretação e imaginação. 

Como essa mudança nos hábitos de leitura pode influenciar a fruição da literatura? 

Com o tempo, a forma como as pessoas leem vai influenciar a forma como escrevem. Acredito que a chegada do livro impresso, criando um grupo muito mais amplo de leitores atentos, encorajou os autores a expandir as fronteiras da literatura, a experimentar novas formas e gêneros, por exemplo. Se a internet e os livros eletrônicos encorajam a leitura distraída, os autores não serão mais capazes de assumir que escrevem para leitores atentos, profundos. Por consequência, acredito que teremos menos experimentação, menos complexidade, menos aventura na escrita. A grande literatura exige não apenas escritores talentosos, mas leitores atentos.



Daqui a imagem e o texto (obrigada, mais uma vez :)


Andrei Tarkovsky on being asked 'What would you like to tell young people?'

"Learn to love solitude, to be more alone with yourselves. The tragedy of today’s young people is that they try to unite on the basis of carrying out noisy and aggressive actions so as not to feel lonely, and this is a sad thing. The individual must learn from childhood to be on his own, for this doesn’t mean to be lonely: it means to not get bored with oneself, because a person who finds himself bored when he is alone, it seems to me, is a person in danger."


Imagem: Julia Fullerton-Batten