terça-feira

Dias felizes

"Dizia de si para si de uma forma abstracta: «Houve um tempo em que Odette me amava mais», mas nunca revia esse tempo. Tal como havia no seu gabinete de trabalho uma cómoda para a qual ele fazia o possível por não olhar, que o obrigava a fazer um desvio para a evitar à entrada e à saída, porque numa das gavetas estavam fechados o crisântemo que ela lhe dera na primeira noite em que a levara a casa e as cartas em que ela lhe dizia: «Se se tivesse esquecido também do coração, não deixaria que o recuperasse» e «Seja qual for a hora do dia ou da noite em que precise de mim, avise-me e disponha da minha vida», do mesmo modo havia nele um lugar donde nunca deixava aproximar-se o seu espírito, obrigando-o a fazer, se necessário fosse, o desvio de um longo raciocínio para que não tivesse que passar por lá: era aquele lugar onde vivia a recordação dos dias felizes."


Lunch Time




Reality

domingo

Prazeres anormais matam o gosto pelos normais

" — Será este desejo de orgias uma daquelas experiências que se tem de viver? E uma vez vivida, podemos ultrapassá-la, sem regressarmos aos mesmos desejos?
  — Não — respondeu ele. — A vida dos instintos libertinos é composta por camadas. A primeira camada conduz à segunda, a segunda à terceira, e assim por diante. Por fim, conduz a prazeres anormais.
    Como é que Hugo e eu podíamos preservar o nosso amor nesta libertação dos instintos, ele não sabia. As experiências físicas isentas das alegrias do amor dependem de variantes e perversões para o prazer. Prazeres anormais matam o gosto pelos normais.
    Tudo isto sabíamos eu e Hugo. Na noite passada, quando conversávamos, ele jurou que não desejava mais ninguém senão a mim. Também estou apaixonada por ele e portanto deixámos a questão de lado. Contudo, a ameaça daqueles instintos inconstantes permanece, dentro do nosso próprio amor."

John William Waterhouse - Hylas and the Nymphs

sexta-feira

Übernating

"You live like this, sheltered, in a delicate world, and you believe you are living. Then you read a book... or you take a trip... and you discover that you are not living, that you are hibernating."

A felicidade chega sempre um segundo depois

"Tinha na alma a falta de flexibilidade que certos seres têm nos corpos, esses que no momento de evitarem um choque, de afastarem uma chama do fato, de realizarem um movimento urgente, não se apressam, começam por ficar um segundo na situação em que estavam antes, como para nela encontrarem o seu ponto de apoio, o seu impulso. E, sem dúvida, se o cocheiro o tivesse interrompido dizendo-lhe: «A senhora está ali», ele teria respondido: «Ah, sim, é verdade, o mandado que eu lhe dei, olhe, nem me lembrava», e teria continuado a falar do abastecimento de lenha para lhe esconder a emoção que tivera e dar a si mesmo tempo para romper com a inquietação e se entregar à felicidade."



Man Ray


Under The Chandelier

"Um minuto depois do meio-dia começa a noite"


quinta-feira

Bastava-lhe fechar os olhos para a ver

"Anna Sergueevna não lhe aparecia em sonhos, antes andava atrás dele por todo o lado, como uma sombra, e olhava para ele. Bastava-lhe fechar os olhos para a ver, como em carne e osso, e parecia-lhe mais bonita, mais jovem, mais meiga; ele próprio se via melhor do que tinha sido naqueles dias, em Ialta. Quando caía a noite, ela olhava-o do armário dos livros, da lareira, de um canto, ouvia-a respirar, o terno roçagar do seu vestido. Na rua, seguia as mulheres com os olhos, a procura de alguém que se parecesse com ela...
E já não o deixava em paz um desejo forte de partilhar com alguém as suas recordações. Ora, em casa era-lhe impossível falar de amor, fora de casa não havia com quem. Claro, não podia ser com os inquilinos ou no banco. E também, falar de que? Será que a amava mesmo, naquela altura? Havia alguma coisa de belo, de poético, de edificante, ou simplesmente de interessante, nas suas relações com Anna Sergueevna? E assim se via obrigado a falar de um amor indefinido, das mulheres, sem ninguém adivinhar aonde queria ele chegar."

The one and only Daniel Day-Lewis

Não vai bêbado, vai sonhador

"   Todos têm, como eu, um coração exaltado e triste. Conheço-os bem: uns são moços de lojas, outros são empregados de escritório, outros são comerciantes de pequenos comércios; outros são os vencedores dos cafés e das tascas, gloriosos sem saberem no êxtase da palavra egotista, a contento no silêncio do egotismo avaro sem ter que guardar. Mas todos, coitados, são poetas, e arrastam, a meus olhos, como eu aos olhos deles, a igual miséria da nossa comum incongruência. Têm todos, como eu, o futuro no passado.
    Agora mesmo, que estou inerte no escritório, e foram todos almoçar salvo eu, fito, através da janela baça, o velho oscilante que percorre lentamente o passeio do outro lado da rua. Não vai bêbado; vai sonhador. Está atento ao inexistente; talvez ainda espere. Os Deuses, se são justos em sua injustiça, nos conservem os sonhos ainda quando sejam impossíveis, e nos dêem bons sonhos, ainda que sejam baixos. Hoje, que não sou velho ainda, posso sonhar com ilhas do Sul e com Índias impossíveis; amanhã talvez me seja dado, pelos mesmos Deuses, o sonho de ser dono de uma tabacaria pequena, ou reformado numa casa dos arredores. Qualquer dos sonhos é o mesmo sonho, porque são todos sonhos. Mudem-me os deuses os sonhos, mas não o dom de sonhar."



terça-feira

Imbatível

"raramente consegue ter tesão, mas a foder o juízo é realmente imbatível."


segunda-feira

Curiosidade

"Lóri, você está se acordando pela curiosidade, aquela que empurra pelos caminhos da vida real. Mas não tenha medo da desarticulação que virá. Essa desarticulação é necessária para que se veja aquilo que, se fosse articulado e harmonioso, não seria visto, seria tomado como óbvio. Na desarticulação haverá um choque entre você e a realidade, é preferível estar preparada para isso, Lóri, a verdade é que estou contando a você parte do meu caminho já percorrido. Nos piores momentos, lembre-se: quem é capaz de sofrer intensamente, também pode ser capaz de intensa alegria."

A curiosidade



O choque entre você e a realidade




A gun and a girl and a girl is a gun






sexta-feira

Mas o que são saudades perante as grandes ascenções?

18.

    Encaro serenamente, sem mais nada que o que na alma represente um sorriso, o fechar-se-me sempre a vida nesta Rua dos Douradores, neste escritório, nesta atmosfera desta gente. Ter o que me dê para comer e beber, e onde habitar, e o pouco espaço livre no tempo para sonhar, escrever - dormir - que mais posso eu pedir aos Deuses ou esperar do Destino?

    Tive grandes ambições e sonhos dilatados - mas esses também os teve o moço de fretes ou a costureira, porque sonhos tem toda a gente: o que nos diferença é a força de conseguir ou o destino de se conseguir connosco.
     Em sonhos sou igual ao moço de fretes e à costureira. Só me distingue deles o saber escrever. Sim, é um acto , uma realidade minha que me diferença deles. Na alma sou seu igual.
(...)
    Talvez o meu destino seja eternamente ser guarda-livros, e a poesia ou a literatura uma borboleta que, pousando-me na cabeça, me torne tanto mais ridículo quanto maior for a sua própria beleza.

     Terei saudades do Moreira, mas o que são saudades perante as grandes ascenções?

quinta-feira

Já semivivendo

"   — Veja aquela moça ali, por exemplo, a de maiô vermelho. Veja como anda com um orgulho natural de quem tem um corpo. Você, além de esconder o que se chama alma, tem vergonha de ter um corpo.
    Ela não respondeu, mas, atingida, tornou-se imperceptivelmente mais rígida. Depois, como sentiu que ele não ia dizer mais nada, pôde aos poucos relaxar os músculos. Pensou — tanto quanto lhe era possível pensar estando de maiô na frente dele — pensou: como é que explicaria a ele, mesmo que quisesse, e não queria, o longo caminho andado até chegar àquele momento possível em que suas pernas se balançavam dentro da piscina. E ele ainda achava pouco. Como explicar que, do longe de onde de dentro de si ela vinha, já era uma vitória estar semivivendo. Porque enfim, uma vez quebrado o susto da nudez diante dele, ela estava respirando de leve, já semivivendo."

Imagem daqui: escolhidas-a-dedo

domingo

Sunday mood


Ah «persona», como não te usar e ser!

"Vestiu um vestido mais ou menos novo, pronta que queria estar para encontrar algum homem, mas a coragem não vinha. Então, sem entender o que fazia  — só o entendeu depois  — pintou de mais os olhos e de mais a boca até que o seu rosto branco de pó parecia uma máscara: ela estava pondo sobre si mesma alguém outro: esse alguém era fantasticamente desinibido, era vaidoso, tinha orgulho de si mesmo. Esse alguém era exactamente o que ela não era.
    Na hora de sair de casa, fraquejou: não estaria exigindo de mais de si mesma? Não seria uma bravata ir sozinha? Toda pronta, com uma máscara de pintura no rosto - ah «persona», como não te usar e ser!  — sem coragem, sentou-se na poltrona de sua sala tão conhecida e seu coração pedia para ela não ir. Parecia prever que ia se machucar muito e ela não era masoquista. Enfim apagou o cigarro-da-coragem, levantou-se e foi.
    Pareceu-lhe que as torturas de uma pessoa tímida jamais tinham sido completamente descritas  — no taxi que rolava ela morria um pouco."




sábado

Casa da Cultura

Jane Eyre style

"Todo sentimento bom, autêntico, vigoroso que tenho se concentra impulsivamente em torno dele. Sei que devo ocultar meus sentimentos; devo sufocar a esperança; tenho de me lembrar que ele não pode se interessar muito por mim. Pois quando digo que sou de sua espécie, não quero dizer que tenha a sua força para influenciar, e a sua magia para atrair; quero dizer apenas que tenho certos gostos e sentimentos em comum com ele. Tenho de me repetir continuamente, portanto, que estamos para sempre separados — e no entanto, enquanto eu respirar e pensar, terei de amá-lo."


Pela sua vida julgava a dos outros

"Tinha duas vidas: uma publica, à vista de todos e conhecida por todos os que precisavam de a conhecer, uma vida cheia da verdade convencional e da mentira convencional, igualzinha a vida dos seus amigos e conhecidos, e tinha outra vida — a secreta. Então, em consequência de um jogo estranho de circunstâncias, talvez casual, tudo o que para ele era importante, interessante, necessário, o cerne da sua vida, passava-se às escondidas dos outros, e tudo o que era a mentira da sua vida, o invólucro onde se metia para não mostrar a verdade, como o serviço no banco, as discussões no clube, a «raça inferior», as idas com a mulher aos jubileus - estava à vista. Pela sua vida julgava a dos outros, pelo que nunca acreditava no que via mas desconfiava sempre de toda e qualquer pessoa, sob o véu do segredo, sob a capa da noite, vivia uma vida verdadeira, a sua vida mais interessante. Cada existência pessoal assenta num segredo, e talvez seja por isso, pelo menos em parte, que o homem moderno se preocupe tanto e tão nervosamente em que o seu segredo pessoal seja respeitado."

 Imagem daqui

sexta-feira

Fêmea desprezada

"Com o desespero de fêmea desprezada, ouviu o carro dele se afastar.
    A visão de Ulisses tirara-lhe o sono. Olhou-se de corpo inteiro ao espelho para calcular o que Ulisses vira. E achou-se atraente. No entanto ele não quisera entrar."

Close to the Flame - Nachan
"A vida é estranhamente fácil e doce para certas pessoas de uma grande distinção natural, espirituosas, afectuosas, mas que são capazes de todos os vícios, se bem que não pratiquem nenhum publicamente e ninguém lhes possa apontar um único. Têm qualquer coisa de maleável e secreto. Além disso, a sua perversidade dá sabor às ocupações mais inocentes, como passear de noite nos jardins."

Imagem daqui

quinta-feira

O serão nos Verdurin

"Para Swann, a presença de Odette acrescentava àquela casa aquilo que nenhuma daquelas onde era recebido possuía: uma espécie de aparelho sensitivo, de rede nervosa, que se ramificava peça por peça e trazia excitações constantes ao seu coração.
    Assim, o simples funcionamento desse organismo social que era o pequeno «clã» marcava automaticamente para Swann encontros quotidianos com Odette e permitia-lhe fingir uma indiferença ao vê-la, ou até um desejo de não a ver mais, que não o fazia correr grandes riscos, visto que, ainda que lhe tivesse escrito durante o dia, iria forçosamente vê-la à noite e havia de levá-la a casa."


A erva

   - A erva, toda cheia de orvalho - disse Anna Sergueevna, quebrando o silencio.
   - Sim. É melhor irmos.
Voltaram à cidade.

quarta-feira

Não se importa de que eu endireite as flores do seu corpete?

"Não se importa de que eu endireite as flores do seu corpete, que foram deslocadas pelo choque? Receio que as perca, gostava de as enfiar um pouco mais para dentro.
   Ela, que não fora habituada a ver os homens terem tantas cerimónias consigo, disse a sorrir:
   - Não, de modo algum, não me importo nada.
  Mas ele, intimidado pela sua resposta, e talvez também para parecer ter sido sincero quando aproveitara aquele pretexto, ou até começando já a acreditar que o fora, exclamou:
   - Ah, não, sobretudo não fale, vai perder o fôlego outra vez, pode muito bem responder-me por gestos, que eu entendo-a bem. Sinceramente que não se importa? É que, está a ver, há um pouco de...penso que é pólen que lhe caiu em cima e se espalhou; vai permitir-me que a limpe com a mão? Não estou a fazer com muita força, não estou a ser muito bruto? Talvez lhe esteja a fazer algumas cócegas, não? É que eu não queria tocar no veludo do vestido para não o amarrotar. Mas, está a ver, era mesmo preciso segurá-las, iam cair; e assim, metendo-as um bocadinho para dentro... A sério, não estou a ser desagradável? E se as cheirasse, para ver se não têm mesmo aroma? Nunca cheirei, posso? Diga a verdade.
    Sorrindo, ela ergueu ligeiramente os ombros, como que a dizer: «Não seja tolo, bem está a ver que isso me agrada.»"