quarta-feira

O trabalho doméstico

    "Quando está bêbado, fica sentimental de uma maneira tão humana e simples. Começa a visualizar a nossa vida juntos, eu como sua esposa:
      — Nunca serás tão bonita como quando te vir arregaçar as mangas e trabalhar para mim. Podíamos ser tão felizes. Deixar-te-ias ultrapassar pelos teus escritos!
    Ah, o marido alemão. Com isso, eu rio. Então, eu deixo-me ultrapassar pelos meus escritos e torno-me a esposa de um génio. Eu quereria isso, entre outras coisas, mas sem trabalho doméstico."

Uma camada de confiança física, uma camada de tímida sedução, uma camada de desespero infantil

segunda-feira

Questionário Proust

1. Existe um livro que relerias várias vezes?
O principezinho foi o que mais vezes reli, agora tinha de o revoltar a reler para ver se ainda faz sentido reler várias vezes mais que as várias vezes que já reli.

2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Cem Anos de Solidão do Gabriel García Márquez e O Chão que Ela Pisa do Salman Rushdie. Nunca passei das 50 páginas em nenhum dos dois. But I try and I try and I try and I try...eheh nem tanto


3. Se escolhesses um livro para ler no resto da tua vida, qual seria?
 Nenhum. Escolho madalenas.



 4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Isto parece pergunta para se fazer no final da vida. Se morresse amanhã, dizia que gostava de ter lido Os Miseráveis ou Anna Karenina ou Guerra e Paz, algo assim.

5. Que livro leste cuja “cena final” jamais conseguiste esquecer?
Lembro-me que naquele livro "Queimada viva" ela foi realmente queimada viva.

6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Lia Triângulo Jota, Uma aventura,  Anastasia Krupnik, aqueles da Caminho da Alice Vieira, a série dos Arrepios, e Jostein Gaarder na passagem da infância para o que veio a seguir.


7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
D. Quixote, A trilogia do Senhor dos Anéis, Kafka à Beira Mar, Quo Vadis... têm partes chatas aqui e ali, mas li até ao fim porque as suas partes boas falaram mais alto.

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Crime e Castigo - Dostoievski
O Monte dos Vendavais - Whatshername Bronte
The Doors of Perception and Heaven and Hell - Aldous Huxley
3 Homens num Bote - Jerome K Jerome
The Outsider - Colin Wilson
Os Subterrâneos - Jack Kerouac
Jane Eyre - Whatshername Bronte
Pela Estrada Fora - Jack Kerouac
Bukowski no geral
Admirável Mundo Novo (e Regresso) - Aldous Huxley
O Calafrio (em Inglês é Turn of the Screw que me faz lembrar http://www.youtube.com/watch?v=z99iVXJ8OtA) - Henry James


9. Que livro estás a ler?
Em Busca do Tempo Perdido: Do Lado de Swann - Marcel Proust
Tenho estado a ler Whitman (yey! \o/ alvíssaras) - Folhas de Erva - Volta e meia once a week
O Livro do Desassossego - Fernando Pessoa (Volta e meia once a week também)
Os Contos de Tchékhov Vol II - São contos, vai-se lendo aqui e ali entre o café e o bagaço

10. Indica dez amigos para responderem a este inquérito
Dez amigos?? Ah Não preciso dizer, eles sabem quem são. Sou muito amigo do meu amigo. E pérolas assim.

Um beijinho à Marisa que me indicou para o questionário. May the winds of destiny carry you aloft to dance with the stars e coisas assim.

domingo

Anaïs Nin goes (more) wild

"Um quarto de hotel, para mim, tem uma implicação de voluptuosidade furtiva, fugaz. Talvez o facto de ter estado sem ver Henry tenha aumentado a minha fome. Masturbo-me com frequência, luxuriosamente, sem remorsos ou aversão posterior. Pela primeira vez sei o que é comer. Aumentei dois quilos. Fico cheia de fome, e a comida que como dá-me um prazer prolongado. Nunca antes tinha comido desta maneira profundamente carnal. Só tenho três desejos agora, comer, dormir e foder. Os cabarets excitam-me. Apetece-me ouvir música rouca, ver caras, roçar-me em corpos, beber um ardente Benedictine. Mulheres belas e homens atraentes despertam ardentes desejos em mim. Quero dançar. Quero drogas. Quero conhecer pessoas perversas, ser íntima delas. Nunca olho para caras ingénuas. Quero morder a vida e ser despedaçada por ela. Henry não me dá tudo isto. Eu despertei o seu amor. Que se lixe o seu amor. Ele sabe foder-me como mais ninguém, mas quero mais do que isso. Vou para o Inferno, para o Inferno, para o Inferno. Selvagem, selvagem, selvagem."

sexta-feira

Mile after mile

"Não consigo deixar de sentir hoje que uma parte de mim fica de lado observando-me a viver e maravilhando-se."


A sabedoria dos que não estão apaixonados

"«Aquele pobre Swann», disse nessa noite a senhora Des Lumes ao marido, «continua amável, mas tem um ar muito infeliz. Há-de vê-lo, porque ele prometeu vir cá jantar um destes dias. No fundo, acho ridículo que um homem com aquela inteligência sofra por uma pessoa daquele género e que nem sequer é interessante, porque dizem que é idiota», acrescentou com a sabedoria dos que não estão apaixonados, que acham que um homem com espírito só deve ser infeliz por causa de uma pessoa que valha a pena: é mais ou menos como admirar-se de que alguém se digne a sofrer de cólera por causa de um ser tão pequeno como o bacilo vírgula."

Sad Swann

terça-feira

Dias felizes

"Dizia de si para si de uma forma abstracta: «Houve um tempo em que Odette me amava mais», mas nunca revia esse tempo. Tal como havia no seu gabinete de trabalho uma cómoda para a qual ele fazia o possível por não olhar, que o obrigava a fazer um desvio para a evitar à entrada e à saída, porque numa das gavetas estavam fechados o crisântemo que ela lhe dera na primeira noite em que a levara a casa e as cartas em que ela lhe dizia: «Se se tivesse esquecido também do coração, não deixaria que o recuperasse» e «Seja qual for a hora do dia ou da noite em que precise de mim, avise-me e disponha da minha vida», do mesmo modo havia nele um lugar donde nunca deixava aproximar-se o seu espírito, obrigando-o a fazer, se necessário fosse, o desvio de um longo raciocínio para que não tivesse que passar por lá: era aquele lugar onde vivia a recordação dos dias felizes."


Lunch Time




Reality

domingo

Prazeres anormais matam o gosto pelos normais

" — Será este desejo de orgias uma daquelas experiências que se tem de viver? E uma vez vivida, podemos ultrapassá-la, sem regressarmos aos mesmos desejos?
  — Não — respondeu ele. — A vida dos instintos libertinos é composta por camadas. A primeira camada conduz à segunda, a segunda à terceira, e assim por diante. Por fim, conduz a prazeres anormais.
    Como é que Hugo e eu podíamos preservar o nosso amor nesta libertação dos instintos, ele não sabia. As experiências físicas isentas das alegrias do amor dependem de variantes e perversões para o prazer. Prazeres anormais matam o gosto pelos normais.
    Tudo isto sabíamos eu e Hugo. Na noite passada, quando conversávamos, ele jurou que não desejava mais ninguém senão a mim. Também estou apaixonada por ele e portanto deixámos a questão de lado. Contudo, a ameaça daqueles instintos inconstantes permanece, dentro do nosso próprio amor."

John William Waterhouse - Hylas and the Nymphs

sexta-feira

Übernating

"You live like this, sheltered, in a delicate world, and you believe you are living. Then you read a book... or you take a trip... and you discover that you are not living, that you are hibernating."

A felicidade chega sempre um segundo depois

"Tinha na alma a falta de flexibilidade que certos seres têm nos corpos, esses que no momento de evitarem um choque, de afastarem uma chama do fato, de realizarem um movimento urgente, não se apressam, começam por ficar um segundo na situação em que estavam antes, como para nela encontrarem o seu ponto de apoio, o seu impulso. E, sem dúvida, se o cocheiro o tivesse interrompido dizendo-lhe: «A senhora está ali», ele teria respondido: «Ah, sim, é verdade, o mandado que eu lhe dei, olhe, nem me lembrava», e teria continuado a falar do abastecimento de lenha para lhe esconder a emoção que tivera e dar a si mesmo tempo para romper com a inquietação e se entregar à felicidade."



Man Ray


Under The Chandelier

"Um minuto depois do meio-dia começa a noite"


quinta-feira

Bastava-lhe fechar os olhos para a ver

"Anna Sergueevna não lhe aparecia em sonhos, antes andava atrás dele por todo o lado, como uma sombra, e olhava para ele. Bastava-lhe fechar os olhos para a ver, como em carne e osso, e parecia-lhe mais bonita, mais jovem, mais meiga; ele próprio se via melhor do que tinha sido naqueles dias, em Ialta. Quando caía a noite, ela olhava-o do armário dos livros, da lareira, de um canto, ouvia-a respirar, o terno roçagar do seu vestido. Na rua, seguia as mulheres com os olhos, a procura de alguém que se parecesse com ela...
E já não o deixava em paz um desejo forte de partilhar com alguém as suas recordações. Ora, em casa era-lhe impossível falar de amor, fora de casa não havia com quem. Claro, não podia ser com os inquilinos ou no banco. E também, falar de que? Será que a amava mesmo, naquela altura? Havia alguma coisa de belo, de poético, de edificante, ou simplesmente de interessante, nas suas relações com Anna Sergueevna? E assim se via obrigado a falar de um amor indefinido, das mulheres, sem ninguém adivinhar aonde queria ele chegar."

The one and only Daniel Day-Lewis

Não vai bêbado, vai sonhador

"   Todos têm, como eu, um coração exaltado e triste. Conheço-os bem: uns são moços de lojas, outros são empregados de escritório, outros são comerciantes de pequenos comércios; outros são os vencedores dos cafés e das tascas, gloriosos sem saberem no êxtase da palavra egotista, a contento no silêncio do egotismo avaro sem ter que guardar. Mas todos, coitados, são poetas, e arrastam, a meus olhos, como eu aos olhos deles, a igual miséria da nossa comum incongruência. Têm todos, como eu, o futuro no passado.
    Agora mesmo, que estou inerte no escritório, e foram todos almoçar salvo eu, fito, através da janela baça, o velho oscilante que percorre lentamente o passeio do outro lado da rua. Não vai bêbado; vai sonhador. Está atento ao inexistente; talvez ainda espere. Os Deuses, se são justos em sua injustiça, nos conservem os sonhos ainda quando sejam impossíveis, e nos dêem bons sonhos, ainda que sejam baixos. Hoje, que não sou velho ainda, posso sonhar com ilhas do Sul e com Índias impossíveis; amanhã talvez me seja dado, pelos mesmos Deuses, o sonho de ser dono de uma tabacaria pequena, ou reformado numa casa dos arredores. Qualquer dos sonhos é o mesmo sonho, porque são todos sonhos. Mudem-me os deuses os sonhos, mas não o dom de sonhar."



terça-feira

Imbatível

"raramente consegue ter tesão, mas a foder o juízo é realmente imbatível."


segunda-feira

Curiosidade

"Lóri, você está se acordando pela curiosidade, aquela que empurra pelos caminhos da vida real. Mas não tenha medo da desarticulação que virá. Essa desarticulação é necessária para que se veja aquilo que, se fosse articulado e harmonioso, não seria visto, seria tomado como óbvio. Na desarticulação haverá um choque entre você e a realidade, é preferível estar preparada para isso, Lóri, a verdade é que estou contando a você parte do meu caminho já percorrido. Nos piores momentos, lembre-se: quem é capaz de sofrer intensamente, também pode ser capaz de intensa alegria."

A curiosidade



O choque entre você e a realidade




A gun and a girl and a girl is a gun






sexta-feira

Mas o que são saudades perante as grandes ascenções?

18.

    Encaro serenamente, sem mais nada que o que na alma represente um sorriso, o fechar-se-me sempre a vida nesta Rua dos Douradores, neste escritório, nesta atmosfera desta gente. Ter o que me dê para comer e beber, e onde habitar, e o pouco espaço livre no tempo para sonhar, escrever - dormir - que mais posso eu pedir aos Deuses ou esperar do Destino?

    Tive grandes ambições e sonhos dilatados - mas esses também os teve o moço de fretes ou a costureira, porque sonhos tem toda a gente: o que nos diferença é a força de conseguir ou o destino de se conseguir connosco.
     Em sonhos sou igual ao moço de fretes e à costureira. Só me distingue deles o saber escrever. Sim, é um acto , uma realidade minha que me diferença deles. Na alma sou seu igual.
(...)
    Talvez o meu destino seja eternamente ser guarda-livros, e a poesia ou a literatura uma borboleta que, pousando-me na cabeça, me torne tanto mais ridículo quanto maior for a sua própria beleza.

     Terei saudades do Moreira, mas o que são saudades perante as grandes ascenções?

quinta-feira

Já semivivendo

"   — Veja aquela moça ali, por exemplo, a de maiô vermelho. Veja como anda com um orgulho natural de quem tem um corpo. Você, além de esconder o que se chama alma, tem vergonha de ter um corpo.
    Ela não respondeu, mas, atingida, tornou-se imperceptivelmente mais rígida. Depois, como sentiu que ele não ia dizer mais nada, pôde aos poucos relaxar os músculos. Pensou — tanto quanto lhe era possível pensar estando de maiô na frente dele — pensou: como é que explicaria a ele, mesmo que quisesse, e não queria, o longo caminho andado até chegar àquele momento possível em que suas pernas se balançavam dentro da piscina. E ele ainda achava pouco. Como explicar que, do longe de onde de dentro de si ela vinha, já era uma vitória estar semivivendo. Porque enfim, uma vez quebrado o susto da nudez diante dele, ela estava respirando de leve, já semivivendo."

Imagem daqui: escolhidas-a-dedo

domingo

Sunday mood


Ah «persona», como não te usar e ser!

"Vestiu um vestido mais ou menos novo, pronta que queria estar para encontrar algum homem, mas a coragem não vinha. Então, sem entender o que fazia  — só o entendeu depois  — pintou de mais os olhos e de mais a boca até que o seu rosto branco de pó parecia uma máscara: ela estava pondo sobre si mesma alguém outro: esse alguém era fantasticamente desinibido, era vaidoso, tinha orgulho de si mesmo. Esse alguém era exactamente o que ela não era.
    Na hora de sair de casa, fraquejou: não estaria exigindo de mais de si mesma? Não seria uma bravata ir sozinha? Toda pronta, com uma máscara de pintura no rosto - ah «persona», como não te usar e ser!  — sem coragem, sentou-se na poltrona de sua sala tão conhecida e seu coração pedia para ela não ir. Parecia prever que ia se machucar muito e ela não era masoquista. Enfim apagou o cigarro-da-coragem, levantou-se e foi.
    Pareceu-lhe que as torturas de uma pessoa tímida jamais tinham sido completamente descritas  — no taxi que rolava ela morria um pouco."