quarta-feira

William Faulkner's Reducto Absurdum

    "Foi entre as sete e as oito que a sombra dos caixilhos apareceu nos cortinados e eu entrei outra vez no tempo, ao som do despertador. Era do Avô, e quando o Pai mo deu disse dou-te o mausoléu da esperança e do desejo; chega a ser dolorosamente justo que o uses para alcançares o reducto absurdum de toda a experiência humana, que responderá às tuas necessidades individuais tão bem como respondeu às do teu avô ou às do pai dele. Dou-to, não para que te lembres constantemente do tempo, mas para que te possas esquecer dele de vez em quando, sem depois te esfalfares na ânsia de o recuperares. Porque, como ele dizia, nenhuma batalha se pode considerar ganha. Nem sequer travada. O campo de batalha apenas revela ao homem a sua própria loucura e desespero, e a vitória é uma ilusão de filósofos e de loucos.
    Estava encostado à caixa dos colarinhos e eu deitado a escutá-lo. Isto é, apenas a ouvi-lo. Não creio que haja alguém que deliberadamente escute um relógio ou um despertador. Nem é preciso. Podemos abstrair-nos do som por largo tempo, e nisto, num segundo de atenção, ele recria na nossa mente o longo período de tempo que não ouvimos."

"When the shadow of the sash appeared on the curtains it was between seven and eight oclock and then I was in time again, hearing the watch. It was Grandfather’s and when Father gave it to me he said I give you the mausoleum of all hope and desire; it’s rather excruciating-ly apt that you will use it to gain the reducto absurdum of all human experience which can fit your individual needs no better than it fitted his or his father’s. I give it to you not that you may remember time, but that you might forget it now and then for a moment and not spend all your breath trying to conquer it. Because no battle is ever won he said. They are not even fought. The field only reveals to man his own folly and despair, and victory is an illusion of philosophers and fools."

 

Premio Muchas Gracias Al Blog Amigable

A Anita no Alfarrabista é uma pessoa com visão :) e por isso disparou  para o meu blog um dardo todo giro. Agora chegou a minha vez de apontar a arma às minhas vítimas.


- O blog primo: nhanhaa
Os blogs amigos:

Amigos do Brasil

Por fim




segunda-feira

Uma vez fiz uma lista de álbuns...

...que acabou por ser mais uma lista de bandas/músicos com um álbum à frente

Pearl Jam - Yield
Bob Dylan - Highway 61 Revisited
Creedence Clearwater Revival -  Pendulum
Pink Floyd -  dark side of the moon
Velvet Underground - Velvet underground & Nico
The Strokes - Is this it
Syd Barrett - Wouldn't You Miss Me
The Beatles - Revolver
Sonic Youth - Washing Machine
Led Zeppelin -  IV
David Bowie - Hunky Dory
Antony and the Johnsons - I am a bird now
Johnny Cash - American IV: The Man Comes Around
Jefferson Airplane - Surrealistic Pillow
The Doors - The Doors




sábado

Não mates a recordação que lembra a felicidade

Nunca mais voltes à casa
Onde ardeste de paixão
Só encontrarás erva rasa
Por entre as lajes do chão
(...)
Por grande a tentação
Que te crie a saudade
Não mates a recordação
Que lembra a felicidade


Foto - Jostein Walengen
Michael: So you're going to ballet every week?
Billy: Aye, but don't say owt.
Michael: Do you get to wear a tutu?
Billy: Fuck off, they're only for lasses. I wear me shorts.
Michael: You ought to ask for a tutu?
Billy: I'd look a right dickhead.
Michael: I think you'd look wicked.


Foto: Alfred Eisenstaedt

Quero...

Ser a Patti Smith


 

Jimi Hendrix was a nigger.
Jesus Christ and Grandma, too.
Jackson Pollock was a nigger.
Nigger, nigger, nigger, nigger,
nigger, nigger, nigger.

Outside of society, they're waitin' for me.
Outside of society, if you're looking,
that's where you'll find me.
Outside of society, they're waitin' for me.
Outside of society.

quinta-feira

Pessoas que me enviam textos e pedem por favor para eu os pôr aqui*

"Não há exercício intelectual que por fim não seja inútil. Uma doutrina filosófica ao princípio é uma descrição verosímil do universo; passam os anos e é um simples capítulo - quando não um parágrafo ou um nome - da história da filosofia. Na literatura, esta capacidade final é ainda mais notória. O Quixote - disse-me Menard - foi acima de tudo um livro agradável; agora é uma ocasião de brindes patrióticos, de soberba gramatical, de obscenas edições de luxo. A glória é uma incompreensão, e quiçá a pior."


A minha escolha para ilustrar este texto porque "oh pa é dificil pôr imagens para textos dos outros...neste momento estou a googlar apocaliypse now beggining technique. Procuro algo mas não sei bem o quê" - citei-me a mim própria. Acho que procurava o fade...


A escolha de Scavenger


* - Exactamente o oposto.

quarta-feira

Apanhar bebedeiras Vs. A compreensão serena do que existe

"Porque é que eu me deixei vencer tantas vezes pelo tédio e para compensar ganzei-me ou apanhei bebedeiras ou tive ataques de fúria ou outros truques todos que as pessoas usam porque desejam tudo menos a compreensão serena do que existe, somente do que existe, que é afinal de contas tanto"

Robert Doisneau - Les coiffeuses (eu sou igualzinha depois de almoçar)
"Penso como se ao mesmo tempo falasse com alguém..."


Um filme que recomendo. Não o da imagem, o que está aqui em baixo no tag.
"- E onde está a Marylou? - perguntei, e Dean disse que ela se prostituíra para juntar uns trocados, ao que parecia, e voltava para Denver «...a puta!» saímos para beber umas cervejas porque não podíamos conversar à vontade diante da minha tia que estava sentada na sala de estar a ler o jornal. Ela lançou um único olhar a Dean e concluiu que era doido."

Foto - John Cohen

É.

"Não pude deixar de sorrir. Em cada esquina um amigo, em cada taxista um filósofo."

domingo

Pessoas que só complicam e não ajudam nada

- Diz aí um momento que te tenha marcado num filme qualquer...no "A Paixão de Joana d'Arc" por exemplo...uma imagem, uma frase...
- O filme é mudo...



sábado

Segundo Gaston Bachelard "não é raro, de facto, que uma vida inteira tenha sido marcada pela vertigem de um dia", pelo que, talvez miticamente, a nova forma, na actividade do criador, seja inseparável de um momento de assombro, aterramento, vacilação como o experimentado por Dante, ao inaugurar em Vita Nova a única forma adequada para, perante a morte de Beatrice, exprimir a força do amor e a profundeza do luto, conforme o anuncia no fim do capítulo 18: "Propus-me, assim, tomar sempre, daí em diante, por motivo das minhas palavras, quanto fosse elogio da mulher gentilíssima. E pensando muito nisto, parecia-me não estar à altura do tema que me propusera, pelo que não me atrevia a começar. Estive assim alguns dias com a ânsia de falar, e o temor de quebrar o silêncio

"And so I decided to take as the theme of my words forever more those which sung the praises of that very graceful one: and thinking about it deeply, it seemed to me I had taken on a theme too high for me, so that I dared not begin: and I remained for several days with the desire to write and in fear of beginning."

XIX He writes a first canzone in praise of Beatrice

Ladies who have knowledge of love,
I wish to speak with you about my lady,
not because I think to end her praises,
but speaking so that I can ease my mind.
I say that thinking of her worth,
Amor makes me feel such sweetness,
that if did not then lose courage,
speaking, I would make all men in love.
And I would not speak so highly,
that I succumb to vile timidity:
but treat of the state of gentleness,
in respect of her, lightly, with you,
loving ladies and young ladies,
that is not to be spoken of to others.



Dante e Beatrice


He was an unruly child who never went to school


Principle 3
No man can think
write or speak from his
heart but he must intend
truth. Thus all sects of
Philosophy are from the
Poetic Genius adapted
to the weakness of
every individual


Principle 4
As none by trave
ling over known
lands can find out
the unknown. So
from already ac-
-quired knowledge
Man could not ac
quire more. there
fore an universal
Poetic Genius exists


Principle 7
As all men are alike
(tho' infintiely vari-
ous) So all Religions
& as all similars have
one source
The true Man is the
source he being the
Poetic Genius


To see a world in a grain of sand

Wikipedia says:

"The song was well known for its haunting imagery, which some have compared to that of William Blake. Although it is filled with numerous Biblical references, it may also have been partly inspired by the following lines from William Blake's Auguries of Innocence:

To see a world in a grain of sand
And a heaven in a wild flower,
Hold infinity in the palm of your hand
And eternity in an hour."

Every Grain of Sand:

In the time of my confession,
in the hour of my deepest need
When the pool of tears beneath my feet
flood every newborn seed
There's a dyin' voice within me
reaching out somewhere,
Toiling in the danger and in
the morals of despair.
Don't have the inclination to
look back on any mistake,
Like Cain,
I now behold this chain of events
that I must break.
In the fury of the moment
I can see the Master's hand
In every leaf that trembles,
in every grain of sand.
Oh, the flowers of indulgence
and the weeds of yesteryear,
Like criminals,
they have choked the breath
of conscience and good cheer.
The sun beat down upon the steps
of time to light the way
To ease the pain of idleness
and the memory of decay.
I gaze into the doorway of
temptation's angry flame
And every time I pass that way
I always hear my name.
Then onward in my journey
I come to understand
That every hair is numbered
like every grain of sand.
I have gone from rags to riches
in the sorrow of the night
In the violence of a summer's dream,
in the chill of a wintry light,
In the bitter dance of loneliness
fading into space,
In the broken mirror of innocence
on each forgotten face.
I hear the ancient footsteps like
the motion of the sea
Sometimes I turn, there's someone there,
other times it's only me.
I am hanging in the balance
of the reality of man
Like every sparrow falling,
like every grain of sand.


William Blake - The Ancient of Days

The bat, the owl, the glowing tyger, and the king of night

Does the sun walk in glorious raiment, on the secret floor
Where the cold miser spreads his gold? or does the bright cloud drop
On his stone threshold? does his eye behold the beam that brings
Expansion to the eye of pity? or will he bind himself
Beside the ox to thy hard furrow? does not that mild beam blot
The bat, the owl, the glowing tyger, and the king of night.
The sea fowl takes the wintry blast. for a cov'ring to her limbs:
And the wild snake, the pestilence to adorn him with gems & gold.
And trees. & birds. & beasts, & men. behold their eternal joy.
Arise you little glancing wings, and sing your infant joy!
Arise and drink your bliss. For everything that lives is holy!

            Thus every morning wails Oothoon. but Theotormon sits
           Upon the margind ocean conversing with shadows dire,

                      The Daughters of Albion hear her woes, & eccho back her sighs.


The End
 


 

Europe: a Prophecy - gravura 4 [Erdman 2]

Unwilling I look up to heaven! unwilling count the stars!
Sitting in fathomless abyss of my immortal shrine.
I sieze their burning power
And bring forth howling terrors, all devouring fiery kings.

Devouring & devoured roaming on dark and desolate mountains
In forests of eternal death, shrieking in hollow trees.
Ah mother Enitharmon!
Stamp not with solid form this vig'rous progeny of fires.

I bring forth from my teeming bosom myriads of flames.
And thou dost stamp them with a signet, then they roam abroad
And leave me void as death:
Ah! I am drown'd in shady woe, and visionary joy.

And who shall bind the infinite with an eternal band?
To compass it with swaddling bands? and who shall cherish it
With milk and honey?
I see it smile & I roll inward & my voice is past.

She ceast & rolld her shady clouds
Into the secret place.

quinta-feira

O ecrã protege-os (-nos)

O dia chega e com ele vem Torbjorn. Não se mostra hostil, mas reservado, quase cortês, como se não estivesse na sua casa. Um enorme conjunto de coisas que nunca foram ditas acumulou-se entre ele e Ingrid, e ficam por dizer. Jantam, bebem café, vêem televisão, o ambiente entre os quatro está simpático e espontâneo. Estão bem, mas não se sentem bem. Vêem televisão e o ecrã protege-os; riem-se agradecidamente e em coro cada vez que surge o mínimo motivo para tal.


quarta-feira

"No dia seguinte, ele não chegou senão passado quase um quarto de hora; eu tinha começado a perder a esperança - era um sentimento pouco comum: ter esperança para perder."


Fotógrafa & Modelo - Lina Scheynius
"Dizia o Pai que um homem é o somatório das suas desgraças. Até que um dia pensa que as desgraças se hão-de cansar, mas nessa altura é o tempo a sua desgraça."


sábado

A lei do compadrio

"O cinema Português é um filme em si mesmo que mistura os vários géneros: comédia, drama, acção e ficção. Olhando para a lista dos filmes menos vistos - já para não falar daqueles que foram subsidiados e nunca chegaram a uma sala pública - constata-se, por exemplo, que o Estado português contribuiu com um milhão de euros para dois filmes que juntos tiveram 571 espectadores. Falamos de Vanitas e Querença. O recordista negativo é Brumas, que nos três dias em que esteve em exibição teve a visita de 24 espectadores pagantes. Calcula-se que os actores, produtores. realizadores e demais intervenientes na feitura do mesmo não tenham famílias numerosas nem muitos amigos...
É usual dizer que um país que não tenha indústria cinematográfica é mais pobre. Nada mais certo, mas se a filosofia do cinema de autor é estar de costas voltadas para o público, que interesse existe em financiar filmes que não são vistos por ninguém? Quando se dá dinheiro a alguém para produzir algo que se identifique com a cultura portuguesa e o resultado final é tão incompreensível, como justificam os 'financiadores' os critérios seguidos? Não justificam porque não há razão alguma para tamanha discrepância, entre o dinheiro investido e o retorno. Apenas se percebe que a lei do compadrio fala mais alto. Não se exige que sejam um sucesso de bilheteira - Manoel de Oliveira não o é, por exemplo -, mas há valores mínimos exigíveis. Fazer filmes para os poucos amigos que têm não é, seguramente, um bom serviço público. Curiosamente, há realizadores que apostam em ver o seu trabalho reconhecido e têm alcançado o sucesso. Mesmo sem patrocínios do Estado. Recorrem a argumentos, muitas vezes, básicos: sexo e droga. Mas, apesar disso, fazem mais pelo cinema português - já que familiarizam o público com a sétima arte nacional - do que os autores que adoram falar para si mesmos."




The Editors

"Too fucking busy, and vice versa."

Reply to her editor, who was bugging her for belated work while she was on her honeymoon.



quinta-feira









no centro exacto do Universo

"Num estado de espírito mais sereno, compreendo que Jack não é a pessoa indicada para o género de perguntas que tenho em mente. Para começar, seria preciso um dia inteiro para obter uma resposta, isto presumindo que ele não ignorava por completo a resposta. Fazer uma pergunta ao Jack é como meter uma moeda numa máquina de discos automática. Há uma pausa, às vezes uma pausa que parece uma eternidade, durante a qual podemos ouvir a nossa pergunta ser remetida para o aparelho primordial de pergunta-resposta que se encontra oculto no centro exacto do Universo. Leva uma eternidade para a pergunta chegar à fonte, como eu disse, e outra eternidade para a resposta fazer a viagem inversa e chegar aos lábios de Jack, que geralmente começam a tremer antes de ele ser capaz de articular as palavras. Esta é uma idiossincrasia que me agrada no Jack. Ao princípio pensei que era ele a tentar mostrar-se difícil, a tentar tomar as coisas mais complexas do que naturalmente são. Mas não tardei a descobrir que estava enganado. O que importa saber a respeito do Jack é que ele dedica a tudo a mesma e igualmente séria consideração. Se lhe mostramos uma porta que não está em condições, ele olha-a, examina-a de todos os ângulos possíveis, medita um bocado, coça a tola e depois diz: «Parece uma operação de grande envergadura». O que significa que talvez tenhamos de deitar a casa abaixo para pôr a porta a prumo. Mas para Jack deitar uma casa abaixo não é nada."


quarta-feira

Tudo o que vem à rede é peixe

  Até chegar aos dezanove anos um rapaz julga que, em matéria de raparigas, tudo o que vem à rede é peixe. Namora tudo o que se move. Se uma pestana bate, o coração rebenta. Se um arbusto treme, salta-lhe para cima. Um verso de amor, um centímetro de tornozelo, um vestido às flores com um ser vivo lá dentro, um dia bonito ou um dia feio – qualquer coisa desencadeia a paixão.
  Folheando as revistas da mãe e detendo-se estudiosamente nas páginas dedicadas à roupa interior, fatos de banho, loções de pele, bronzeadores e tudo o mais que seja susceptível de revelar a sombra de um mamilo ou o mapa de uma anca, o rapaz adolescente compreende pela primeira vez que, em qualquer época histórica, mas sobretudo na dele, há aproximadamente 986568995 mulheres muito, muito desejáveis. Dessas, ele vai conhecer 27, das quais 26 não lhe hão-de ligar nenhuma. É  uma angústia. Entretanto, a única que lhe sobra, que se interessa por ele, dá-lhe cabo da cabeça e depois foge com outro.


Bruce Mozert

Modo 'Não percas tempo'

   O tempo que passamos longe das pessoas de quem gostamos é interminável desde o dia em que nascemos. O mundo havia de ser mais pequeno. Só devia haver um país, um liceu, uma empresa, uma rua na única cidade que houvesse. Portugal é enorme. É grande de mais. Do mundo nem se fala.
   Contam-se os minutos. Contam-se os quilómetros. O mundo está mal organizado. Os desconhecidos abundam. Telefonam. Aparecem. Os motoristas de táxi ocupam uma larga parte das nossas vidas. Os recepcionistas. As pessoas que nos perguntam as horas. Estupidamente, em nome da vida, ou de uma ideia de vida, perdemos o tempo que temos. Há pessoas com quem queremos estar, que querem estar connosco. Não são estas.    


10 Estratégias de Manipulação Para Manter o Público Alienado

1 – A ESTRATÉGIA DA DISTRAÇÃO

O elemento primordial do controle social é a estratégia da distracção que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e económicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distracções e de informações insignificantes. A estratégia da distracção é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. "Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais (citação do texto 'Armas silenciosas para guerras tranquilas')".

2 – CRIAR PROBLEMAS, DEPOIS OFERECER SOLUÇÕES

Este método também é chamado "problema-reacção-solução". Cria-se um problema, uma "situação" prevista para causar certa reacção no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise económica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

3 – A ESTRATÉGIA DA GRADAÇÃO

Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições socioeconómicos radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.

4 – A ESTRATÉGIA DO DEFERIDO

Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como sendo "dolorosa e necessária", obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Em seguida, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que "tudo irá melhorar amanhã" e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a ideia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

5 – DIRIGIR-SE AO PÚBLICO COMO CRIANÇAS DE BAIXA IDADE

A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entoação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse um menino de baixa idade ou um deficiente mental. Quanto mais se intente buscar enganar ao espectador, mais se tende a adoptar um tom infantilizante. Por quê?"Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestionabilidade, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reacção também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade (ver "Armas silenciosas para guerras tranquilas")".

6 – UTILIZAR O ASPECTO EMOCIONAL MUITO MAIS DO QUE A REFLEXÃO

Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e por fim ao sentido critico dos indivíduos.Além do mais, a utilização do registo emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar ideias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos...

7 – MANTER O PÚBLICO NA IGNORÂNCIA E NA MEDIOCRIDADE

Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. "A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores às classes sociais superiores seja e permaneça impossíveis para o alcance das classes inferiores (ver 'Armas silenciosas para guerras tranquilas')".

8 – ESTIMULAR O PÚBLICO A SER COMPLACENTE NA MEDIOCRIDADE

Promover ao público a achar que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto...

9 – REFORÇAR A REVOLTA PELA AUTOCULPABILIDADE

Fazer o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema económico, o individuo se auto-desvalida e culpa-se, o que gera um estado depressivo do qual um dos seus efeitos é a inibição da sua acção. E, sem acção, não há revolução!

10- CONHECER MELHOR OS INDIVÍDUOS DO QUE ELES MESMOS SE CONHECEM

No transcorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado crescente brecha entre os conhecimentos do público e aquelas possuídas e utilizadas pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neuro-biologia e à psicologia aplicada, o "sistema" tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele mesmo conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos.