quarta-feira

Tudo o que vem à rede é peixe

  Até chegar aos dezanove anos um rapaz julga que, em matéria de raparigas, tudo o que vem à rede é peixe. Namora tudo o que se move. Se uma pestana bate, o coração rebenta. Se um arbusto treme, salta-lhe para cima. Um verso de amor, um centímetro de tornozelo, um vestido às flores com um ser vivo lá dentro, um dia bonito ou um dia feio – qualquer coisa desencadeia a paixão.
  Folheando as revistas da mãe e detendo-se estudiosamente nas páginas dedicadas à roupa interior, fatos de banho, loções de pele, bronzeadores e tudo o mais que seja susceptível de revelar a sombra de um mamilo ou o mapa de uma anca, o rapaz adolescente compreende pela primeira vez que, em qualquer época histórica, mas sobretudo na dele, há aproximadamente 986568995 mulheres muito, muito desejáveis. Dessas, ele vai conhecer 27, das quais 26 não lhe hão-de ligar nenhuma. É  uma angústia. Entretanto, a única que lhe sobra, que se interessa por ele, dá-lhe cabo da cabeça e depois foge com outro.


Bruce Mozert

Modo 'Não percas tempo'

   O tempo que passamos longe das pessoas de quem gostamos é interminável desde o dia em que nascemos. O mundo havia de ser mais pequeno. Só devia haver um país, um liceu, uma empresa, uma rua na única cidade que houvesse. Portugal é enorme. É grande de mais. Do mundo nem se fala.
   Contam-se os minutos. Contam-se os quilómetros. O mundo está mal organizado. Os desconhecidos abundam. Telefonam. Aparecem. Os motoristas de táxi ocupam uma larga parte das nossas vidas. Os recepcionistas. As pessoas que nos perguntam as horas. Estupidamente, em nome da vida, ou de uma ideia de vida, perdemos o tempo que temos. Há pessoas com quem queremos estar, que querem estar connosco. Não são estas.    


10 Estratégias de Manipulação Para Manter o Público Alienado

1 – A ESTRATÉGIA DA DISTRAÇÃO

O elemento primordial do controle social é a estratégia da distracção que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e económicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distracções e de informações insignificantes. A estratégia da distracção é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. "Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais (citação do texto 'Armas silenciosas para guerras tranquilas')".

2 – CRIAR PROBLEMAS, DEPOIS OFERECER SOLUÇÕES

Este método também é chamado "problema-reacção-solução". Cria-se um problema, uma "situação" prevista para causar certa reacção no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise económica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

3 – A ESTRATÉGIA DA GRADAÇÃO

Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições socioeconómicos radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.

4 – A ESTRATÉGIA DO DEFERIDO

Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como sendo "dolorosa e necessária", obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Em seguida, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que "tudo irá melhorar amanhã" e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a ideia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

5 – DIRIGIR-SE AO PÚBLICO COMO CRIANÇAS DE BAIXA IDADE

A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entoação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse um menino de baixa idade ou um deficiente mental. Quanto mais se intente buscar enganar ao espectador, mais se tende a adoptar um tom infantilizante. Por quê?"Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestionabilidade, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reacção também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade (ver "Armas silenciosas para guerras tranquilas")".

6 – UTILIZAR O ASPECTO EMOCIONAL MUITO MAIS DO QUE A REFLEXÃO

Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e por fim ao sentido critico dos indivíduos.Além do mais, a utilização do registo emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar ideias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos...

7 – MANTER O PÚBLICO NA IGNORÂNCIA E NA MEDIOCRIDADE

Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. "A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores às classes sociais superiores seja e permaneça impossíveis para o alcance das classes inferiores (ver 'Armas silenciosas para guerras tranquilas')".

8 – ESTIMULAR O PÚBLICO A SER COMPLACENTE NA MEDIOCRIDADE

Promover ao público a achar que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto...

9 – REFORÇAR A REVOLTA PELA AUTOCULPABILIDADE

Fazer o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema económico, o individuo se auto-desvalida e culpa-se, o que gera um estado depressivo do qual um dos seus efeitos é a inibição da sua acção. E, sem acção, não há revolução!

10- CONHECER MELHOR OS INDIVÍDUOS DO QUE ELES MESMOS SE CONHECEM

No transcorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado crescente brecha entre os conhecimentos do público e aquelas possuídas e utilizadas pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neuro-biologia e à psicologia aplicada, o "sistema" tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele mesmo conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos.

terça-feira

America I've given you all and now I'm nothing



Numa carta de Dezembro de 1952, ela (Stella Sampas) escreve-lhe:

«Fico muito contente por não me teres ignorado por completo. Saber que tens tanto para nos dar a nós, pobres mortais, e constatar que apesar disso ninguém te estende a mão, isso deprime-me verdadeiramente.»

Ao que ele responde (a 10 de Dezembro de 1952):

«Mas o que eles não sabem é que me vou tornar no maior e mais famoso escritor da minha geração, tal como Dostoievsky, e um dia veremos isso, bem como a vacuidade das suas vidas passadas a correr atrás das modas e nas ilhas cintilantes de Itália»


Bob Dylan e Allen Ginsberg na campa de Jack Kerouac (fotos de Ken Regan)


Manipulação de massas com atum

A razão e os argumentos não conseguem lutar contra certas palavras e fórmulas. Elas são pronunciadas respeitosamente perante as multidões; e imediatamente os rostos assumem uma expressão submissa e as frontes se inclinam. Elas evocam nas almas imagens grandiosas e vagas, mas a própria falta de precisão que lhes atenua os contornos aumenta o seu poder sobrenatural. Podemos compará-las a essas terríveis divindades ocultas no tabernáculo, das quais o devoto se aproxima tremendo de medo.
(...)
É a necessidade de escravatura e não de liberdade que domina sempre a alma das multidões.



"Onde não estamos é que estamos bem. Já não estamos no passado, e então ele parece-nos belíssimo."
 Um momento do passado belíssimo:

Camille Claudel working on Sakountala in her studio, photo by William Elborn, 1887.

Este blog é fã da Lenore


Mais uma:


segunda-feira

O meu post sobre matar bebés

"É preciso matar os nossos bebés

(Esta seria considerada a lei Tchekhov. Com isto ele refere-se às criações originais. Por exemplo, ao criares uma história e teres já pensado num episódio que adoras e que «tem de entrar» vês que o TODO nada tem a ver com essa pequena PARTE que queres incluir...Apesar de muito gostares dela. Têm de se fazer sacrifícios, e o teu é matar esse bebé (o tal episódio))."

Relacionado com o tema: Kill your darlings


rising from destruction

P.s - Não gostei muito de como ficou este post, o que significa que é ele próprio um bebé que eu deveria ter matado.




 




terça-feira

Descer ao abismo e voltar com arte

"Ninguém volta ileso de uma descida ao abismo, porque no fundo de todo o abismo existe um espelho"


"Em 1842, o pintor inglês George Turner, famoso pelas suas pinturas marítimas, amarrou-se ao mastro de um navio, durante uma tempestade, para poder contemplar a fúria dos elementos sem correr o perigo de ser arremessado para fora do navio. Aguentou 4 horas o sacrifício, em nome da arte, e produziu uma pintura intitulada "Snow Storm".

A imagem do indivíduo atado ao mastro é um episódio da "Odisseia". Ulisses ordena aos seus marinheiros que ponham cera nos ouvidos e que o amarrem ao mastro. Assim, os marinheiros remam sem serem perturbados, e ele pode conhecer o canto das sereias sem se atirar ao mar em busca delas, como faziam todos os que se aventuravam por aqueles mares.

Em síntese, essa imagem representa o artista que quer chegar perto do abismo, mas quer também ter a certeza de voltar. Pelo bem da arte, ele quer ter uma experiência transcendente e perigosa, mas quer fazê-lo cercado de algumas garantias. Parece haver nisto uma certa cobardia, mas existe lógica: se o artista morrer durante a experiência, ela terá sido em vão, porque ele não foi capaz de retratá-la numa obra de arte. O objetivo do artista é a obra, ou seja, a "reportagem do que aconteceu", e não a experiência em si. Quando Aldous Huxley, em Maio de 1953, tomou quatro decigramas de mescalina dissolvidas em meio copo de água, ele fez isso acompanhado pela esposa e por um cientista que pesquisava o efeito das drogas, e gravou em fita tudo que foi dito naquela manhã – o que lhe serviu de base para o livro "As portas da percepção".

Jean-Paul Sartre foi outro que experimentou a mescalina. Em 1935, tomou mescalina e teve terríveis alucinações com monstros e caranguejos que o perseguiam. Há relatos de que ele julgava ver um enorme orangotango espreitando-o do lado de fora da janela. Uma parte do impacto mental desta experiência foi reconstituído em "A Náusea", que é tanto um romance existencialista quanto um relato de estado alterado de consciência. Em Beyond the Outsider, o livro em que descreve sua própria experiência com a mescalina, Colin Wilson observa que a experiência de Huxley foi próxima de uma iluminação mística, e a de Sartre uma verdadeira "bad trip". Por mais que se tomem precauções, ninguém volta ileso de uma descida ao abismo, porque no fundo de todo o abismo existe um espelho."


George Turner - Snow Storm

Ulysses and the Sirens

Depois tenho também aqui perdido no caderno o seguinte texto: "O artista produz porque se ocupa de si, porque transforma o reflexo em abismo, e o mergulho nele é tão arriscado como fecundo, pois trata-se sempre de conseguir regressar trazendo alguma coisa que se arrancou à escuridão." Diz que é de um tal Molder, mas vou ter de verificar. 

Parte 2 - Encontrei a fonte onde estava a citação do Molder (MOLDER, M. F. (2005) O que é que Louise Bourgeois sabe, que eu não sei? in Dias, I. (dir.) (2005).) antes de ter ido parar ao meu caderno: aqui, página 171.

Um repentino pensamento libertador

"Vivo numa cave; o que é o resultado de toda a minha vida ter ido por água abaixo, em todos os sentidos da expressão.
    O meu quarto não tem mais do que uma janela, e apenas a parte superior desta se encontra acima do passeio; isso faz com que eu veja o mundo exterior a partir de baixo. Não é um mundo grande, mas com frequência tenho a sensação de que é grande quanto basta.
    Apenas vejo as pernas e a parte inferior do corpo das pessoas que andam pelo passeio no meu lado da rua, mas depois de quatro anos a viver aqui, sei, na maioria dos casos, a quem pertencem. Isto deve-se ao facto de aqui haver pouco trânsito - vivo quase no fim de uma rua sem saída.
    Sou um homem de poucas palavras, mas por vezes falo sozinho. O que digo nessas ocasiões são coisas que me parecem ter de ser ditas.
    Um dia, ao ver passar a parte inferior do corpo da mulher do senhorio enquanto estava junto à janela, senti-me repentinamente tão só que decidi sair.
    Enfiei os sapatos e o casaco e, por precaução, meti os óculos para ler no bolso do casaco. Então saí. A vantagem de viver numa cave é que se sobe quando se está fresco e se desce quando se chega a casa cansado. Creio que é a única vantagem."


Este é um livro que recomendo (e o José Riço Direitinho também).

segunda-feira

"It was love at first sight, at last sight, at ever and ever sight."


Haters gonna hate

"O Miguel hoje parece mais cauteloso e menos cruel a avaliar os escritores de que não gosta do que era há 20 anos atrás?

Menos cruel?! Eu acho é que já é insuportável...Quando se é muito novo, a ignorância leva-nos a fazer listas: amo e odeio. Quando era muito novo eu disse: «Detesto música brasileira». Não conhecia a música brasileira. Odeio música country. Não conhecia. Para facilitar, numa situação de ignorância, o que é que se pode fazer? Dizer «não conheço», «não faço ideia»? Não. Ou sobre as mulheres: «Gosto de mulheres não sei quê». Só conheces duas. Mas tens de dizer «odeio francesas» ou «odeio comida italiana», vamos supor, para poderes construir uma personalidade. À medida que se vai lendo e vivendo, essa defesa deixa de ser necessária. Portanto, isso que parece ser crueldade, quando se é jovem, é antes uma forma de ignorância."


domingo

"O que eu digo não tem importância, entende? Seja como for, você não se lembrará. Muitas vezes vi isso...Um homem que fala com outro e não se importa se o outro escuta ou compreende. A questão é falar, ou então ficar calado, sem falar. Não há diferença, nenhuma diferença. - A sua excitação tinha crescido até ao ponto de ele golpear o joelho com a mão. - George pode dizer-lhe qualquer disparate, é o mesmo. O caso é falar. O caso é estar com outra pessoa. Isso é tudo."

sexta-feira

Homero's Garden

"A cabeça de Susan, com o seu aspecto bravio e os seus olhos verde-musgo, que, e de acordo com o Bernard, estão destinados a ser amados pelos poetas, porque se fixam nas coisas, põe a minha a um canto."

My books, as soon as they are published, no longer belong to me

Finally, as to my own books, I wish I could send you any of them that might give you pleasure. But I am very poor, and my books, as soon as they are published, no longer belong to me. I can't even afford them myself - and, as I would so often like to, give them to those who would be kind to them.

So I am writing for you, on another slip of paper, the titles (and publishers) of my most recent books (the newest ones - all together I have published perhaps 12 or 13), and must leave it to you, dear Sir, to order one or two of them when you can.

I am glad that my books will be in your good hands.

segunda-feira

Não há senão um caminho

"O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, — ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?” Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade (...) Também, meu prezado Senhor, não lhe posso dar outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra sua vida; na fonte desta é que encontrará resposta à questão de saber se deve criar. Aceite-a tal como se lhe apresentar à primeira vista sem procurar interpretá-la. Talvez venha significar que o Senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceite o destino e carregue-o com seu peso e a sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou"

"I know you want to sing. See. I love to sing. Nothing makes me happier.I either wanted to be a singer or the head of the Ice Capades. Hey. Do you know who the Ice Capades are? Don't roll your eyes. They were very cool. I went to my mother who gave me this book...called Letters To A Young Poet. Rainer Maria Rilke. He's a fabulous writer. A fellow used to write to him and say: "I want to be a writer. Please read my stuff." And Rilke says to this guy: "Don't ask me about being a writer. lf when you wake up in the morning you can think of nothing but writing...then you're a writer." I'm gonna say the same thing to you. If you wake up in the mornin' and you can't think of anything but singin' first...then you're supposed to be a singer. 
- What's the point of your story. 
- What's the point? Read the book."

Não sei mudar o tipo de letra ali do primeiro texto
  
O livro (em Inglês) 

As raparigas do Norte têm belezas perigosas

"O Norte é mais Português que Portugal. As minhotas são as raparigas mais bonitas do País. O Minho é a nossa província mais estragada e continua a ser a mais bela. As festas da Nossa Senhora da Agonia são as maiores e mais impressionantes que já se viram.

Viana do Castelo é uma cidade clara. Não esconde nada. Não há uma Viana secreta. Não há outra Viana do lado de lá. Em Viana do Castelo está tudo à vista. A luz mostra tudo o que há para ver. É uma cidade verde-branca. Verde-rio e verde-mar, mas branca. Em Agosto até o verde mais escuro, que se vê nas árvores antigas do Monte de Santa Luzia, parece tornar-se branco ao olhar. Até o granito das casas.

Mais verdades.
No Norte a comida é melhor.
O vinho é melhor.
O serviço é melhor.
Os preços são mais baixos.
Não é difícil entrar ao calhas numa taberna, comer muito bem e pagar uma ninharia
Estas são as verdades do Norte de Portugal

Mas há uma verdade maior.
É que só o Norte existe. O Sul não existe.
As partes mais bonitas de Portugal, o Alentejo, os Açores, a Madeira, Lisboa, et caetera, existem sozinhas. O Sul é solto. Não se junta.

Não se diz que se é do Sul como se diz que se é do Norte.
No Norte dizem-se e orgulham-se de se dizer nortenhos. Quem é que se identifica como sulista?
No Norte, as pessoas falam mais no Norte do que todos os portugueses juntos falam de Portugal inteiro.
Os nortenhos não falam do Norte como se o Norte fosse um segundo país

Não haja enganos.
Não falam do Norte para separá-lo de Portugal.
Falam do Norte apenas para separá-lo do resto de Portugal.

Para um nortenho, há o Norte e há o Resto. É a soma de um e de outro que constitui Portugal.
Mas o Norte é onde Portugal começa.
Depois do Norte, Portugal limita-se a continuar, a correr por ali abaixo.

Deus nos livre, mas se se perdesse o resto do país e só ficasse o Norte, Portugal continuaria a existir. Como país inteiro. Pátria mesmo, por muito pequenina. No Norte.

Em contrapartida, sem o Norte, Portugal seria uma mera região da Europa.
Mais ou menos peninsular, ou insular.

É esta a verdade. 

Lisboa é bonita e estranha mas é apenas uma cidade. O Alentejo é especial mas ibérico, a Madeira é encantadora mas inglesa e os Açores são um caso à parte. Em qualquer caso, os lisboetas não falam nem no Centro nem no Sul – falam em Lisboa. Os alentejanos nem sequer falam do Algarve – falam do Alentejo. As ilhas falam em si mesmas e naquela entidade incompreensível a que chamam, qual hipermercado de mil misturadas, Continente.

No Norte, Portugal tira de si a sua ideia e ganha corpo. Está muito estragado, mas é um estragado português, semi-arrependido, como quem não quer a coisa.

O Norte cheira a dinheiro e a alecrim.

O asseio não é asséptico – cheira a cunhas, a conhecimentos e a arranjinho. Tem esse defeito e essa verdade.

Em contrapartida, a conservação fantástica de (algum) Alentejo é impecável, porque os alentejanos são mais frios e conservadores (menos portugueses) nessas coisas.

O Norte é feminino.

O Minho é uma menina. Tem a doçura agreste, a timidez insolente da mulher portuguesa. Como um brinco doirado que luz numa orelha pequenina, o Norte dá nas vistas sem se dar por isso.

As raparigas do Norte têm belezas perigosas, olhos verdes-impossíveis, daqueles em que os versos, desde o dia em que nascem, se põem a escrever-se sozinhos.
Têm o ar de quem pertence a si própria. Andam de mãos nas ancas. Olham de frente. Pensam em tudo e dizem tudo o que pensam. Confiam, mas não dão confiança. Olho para as raparigas do meu país e acho-as bonitas e honradas, graciosas sem estarem para brincadeiras, bonitas sem serem belas, erguidas pelo nariz, seguras pelo queixo, aprumadas, mas sem vaidade. Acho-as verdadeiras. Acredito nelas. Gosto da vergonha delas, da maneira como coram quando se lhes fala e da maneira como podem puxar de um estalo ou de uma panela, quando se lhes falta ao respeito. Gosto das pequeninas, com o cabelo puxado atrás das orelhas, e das velhas, de carrapito perfeito, que têm os olhos endurecidos de quem passou a vida a cuidar dos outros. Gosto dos brincos, dos sapatos, das saias. Gosto das burguesas, vestidas à maneira, de braço enlaçado nos homens. Fazem-me todas medo, na maneira calada como conduzem as cerimónias e os maridos, mas gosto delas.

São mulheres que possuem; são mulheres que pertencem. As mulheres do Norte deveriam mandar neste país. Têm o ar de que sabem o que estão a fazer. Em Viana, durante as festas, são as senhoras em toda a parte. Numa procissão, numa barraca de feira, numa taberna, são elas que decidem silenciosamente.

Trabalham três vezes mais que os homens e não lhes dão importância especial.

Só descomposturas, e mimos, e carinhos.

O Norte é a nossa verdade.

Ao princípio irritava-me que todos os nortenhos tivessem tanto orgulho no Norte, porque me parecia que o orgulho era aleatório. Gostavam do Norte só porque eram do Norte. Assim também eu. Ansiava por encontrar um nortenho que preferisse Coimbra ou o Algarve, da maneira que eu, lisboeta, prefiro o Norte. Afinal, Portugal é um caso muito sério e compete a cada português escolher, de cabeça fria e coração quente, os seus pedaços e pormenores.
Depois percebi.

Os nortenhos, antes de nascer, já escolheram. Já nascem escolhidos. Não escolhem a terra onde nascem, seja Ponte de Lima ou Amarante, e apesar de as defenderem acerrimamente, põem acima dessas terras a terra maior que é o “O Norte”.

Defendem o “Norte” em Portugal como os Portugueses haviam de defender Portugal no mundo. Este sacrifício colectivo, em que cada um adia a sua pertença particular – o nome da sua terrinha – para poder pertencer a uma terra maior, é comovente.

No Porto, dizem que as pessoas de Viana são melhores do que as do Porto. Em Viana, dizem que as festas de Viana não são tão autênticas como as de Ponte de Lima. Em Ponte de Lima dizem que a vila de Amarante ainda é mais bonita.
O Norte não tem nome próprio. Se o tem não o diz. Quem sabe se é mais Minho ou Trás-os- Montes, se é litoral ou interior, português ou galego? Parece vago. Mas não é. Basta olhar para aquelas caras e para aquelas casas, para as árvores, para os muros, ouvir aquelas vozes, sentir aquelas mãos em cima de nós, com a terra a tremer de tanto tambor e o céu em fogo, para adivinhar.

O nome do Norte é Portugal. Portugal, como nome de terra, como nome de nós todos, é um nome do Norte. Não é só o nome do Porto. É a maneira que têm e dizer “Portugal” e “Portugueses”. No Norte dizem-no a toda a hora, com a maior das naturalidades. Sem complexos e sem patrioteirismos. Como se fosse só um nome. Como “Norte”. Como se fosse assim que chamassem uns pelos outros. Porque é que não é assim que nos chamamos todos?"




Despreocupadamente tranquila e distante

R. M. Rilke: "Nessa vida o tempo não é uma medida, um ano nada é, e dez anos não são nada; ser artista significa: não fazer cálculos nem contas, amadurecer como uma árvore que não força a sua própria seiva e resiste, confiante, nas tempestades da Primavera, sem recear que o Verão possa não vir depois. Ele vem. Mas apenas para os que são pacientes, que estão lá como se tivessem a eternidade diante deles, despreocupadamente tranquila e distante."

Virgina Woolf: "O que precisa agora é de ficar à janela e deixar que o seu sentido rítmico pulse, pulse, audaciosa e livremente, até que uma coisa se funda com outra, até que os táxis dancem com os narcisos, até que um todo se forme a partir destes fragmentos separados. Estou a dizer disparates, eu sei. O que quero dizer é, reúna toda a sua coragem, apure a sua atenção, invoque todas as dádivas que a natureza lhe quis conceder. Depois, deixe que o seu sentido rítmico circule livremente entre homens e mulheres, autocarros, espargos (tudo o que andar na rua) até conseguir reuni-los num todo harmonioso. Essa é, talvez, a sua tarefa – encontrar a relação entre as coisas que parecem incompatíveis, mas que, no entanto, têm uma afinidade misteriosa; absorver, sem medo, cada experiência que lhe apareça à frente e enriquecê-la completamente para que o seu poema seja um todo, não um fragmento; pensar a vida humana na poesia e oferecer-nos assim, de novo, a tragédia e a comédia(...)"



 Imagem

Um bocadinho mais aqui

Comentário posterior (o chamado mexerico):
"esse foi o gajo que roubou a gaja ao Nietzsche e que por conseguinte o fez mergulhar na loucura.
No entanto diz-se que ele era gay ou bissexual. Era um Oscar Wilde"
 

sábado

Ever tried.
Ever failed.
No matter.

        Try again.
           Fail again.
              Fail better.


Sensibilidade e Bom Senso