quarta-feira

"No dia seguinte, ele não chegou senão passado quase um quarto de hora; eu tinha começado a perder a esperança - era um sentimento pouco comum: ter esperança para perder."


Fotógrafa & Modelo - Lina Scheynius
"Dizia o Pai que um homem é o somatório das suas desgraças. Até que um dia pensa que as desgraças se hão-de cansar, mas nessa altura é o tempo a sua desgraça."


sábado

A lei do compadrio

"O cinema Português é um filme em si mesmo que mistura os vários géneros: comédia, drama, acção e ficção. Olhando para a lista dos filmes menos vistos - já para não falar daqueles que foram subsidiados e nunca chegaram a uma sala pública - constata-se, por exemplo, que o Estado português contribuiu com um milhão de euros para dois filmes que juntos tiveram 571 espectadores. Falamos de Vanitas e Querença. O recordista negativo é Brumas, que nos três dias em que esteve em exibição teve a visita de 24 espectadores pagantes. Calcula-se que os actores, produtores. realizadores e demais intervenientes na feitura do mesmo não tenham famílias numerosas nem muitos amigos...
É usual dizer que um país que não tenha indústria cinematográfica é mais pobre. Nada mais certo, mas se a filosofia do cinema de autor é estar de costas voltadas para o público, que interesse existe em financiar filmes que não são vistos por ninguém? Quando se dá dinheiro a alguém para produzir algo que se identifique com a cultura portuguesa e o resultado final é tão incompreensível, como justificam os 'financiadores' os critérios seguidos? Não justificam porque não há razão alguma para tamanha discrepância, entre o dinheiro investido e o retorno. Apenas se percebe que a lei do compadrio fala mais alto. Não se exige que sejam um sucesso de bilheteira - Manoel de Oliveira não o é, por exemplo -, mas há valores mínimos exigíveis. Fazer filmes para os poucos amigos que têm não é, seguramente, um bom serviço público. Curiosamente, há realizadores que apostam em ver o seu trabalho reconhecido e têm alcançado o sucesso. Mesmo sem patrocínios do Estado. Recorrem a argumentos, muitas vezes, básicos: sexo e droga. Mas, apesar disso, fazem mais pelo cinema português - já que familiarizam o público com a sétima arte nacional - do que os autores que adoram falar para si mesmos."




The Editors

"Too fucking busy, and vice versa."

Reply to her editor, who was bugging her for belated work while she was on her honeymoon.



quinta-feira









no centro exacto do Universo

"Num estado de espírito mais sereno, compreendo que Jack não é a pessoa indicada para o género de perguntas que tenho em mente. Para começar, seria preciso um dia inteiro para obter uma resposta, isto presumindo que ele não ignorava por completo a resposta. Fazer uma pergunta ao Jack é como meter uma moeda numa máquina de discos automática. Há uma pausa, às vezes uma pausa que parece uma eternidade, durante a qual podemos ouvir a nossa pergunta ser remetida para o aparelho primordial de pergunta-resposta que se encontra oculto no centro exacto do Universo. Leva uma eternidade para a pergunta chegar à fonte, como eu disse, e outra eternidade para a resposta fazer a viagem inversa e chegar aos lábios de Jack, que geralmente começam a tremer antes de ele ser capaz de articular as palavras. Esta é uma idiossincrasia que me agrada no Jack. Ao princípio pensei que era ele a tentar mostrar-se difícil, a tentar tomar as coisas mais complexas do que naturalmente são. Mas não tardei a descobrir que estava enganado. O que importa saber a respeito do Jack é que ele dedica a tudo a mesma e igualmente séria consideração. Se lhe mostramos uma porta que não está em condições, ele olha-a, examina-a de todos os ângulos possíveis, medita um bocado, coça a tola e depois diz: «Parece uma operação de grande envergadura». O que significa que talvez tenhamos de deitar a casa abaixo para pôr a porta a prumo. Mas para Jack deitar uma casa abaixo não é nada."


quarta-feira

Tudo o que vem à rede é peixe

  Até chegar aos dezanove anos um rapaz julga que, em matéria de raparigas, tudo o que vem à rede é peixe. Namora tudo o que se move. Se uma pestana bate, o coração rebenta. Se um arbusto treme, salta-lhe para cima. Um verso de amor, um centímetro de tornozelo, um vestido às flores com um ser vivo lá dentro, um dia bonito ou um dia feio – qualquer coisa desencadeia a paixão.
  Folheando as revistas da mãe e detendo-se estudiosamente nas páginas dedicadas à roupa interior, fatos de banho, loções de pele, bronzeadores e tudo o mais que seja susceptível de revelar a sombra de um mamilo ou o mapa de uma anca, o rapaz adolescente compreende pela primeira vez que, em qualquer época histórica, mas sobretudo na dele, há aproximadamente 986568995 mulheres muito, muito desejáveis. Dessas, ele vai conhecer 27, das quais 26 não lhe hão-de ligar nenhuma. É  uma angústia. Entretanto, a única que lhe sobra, que se interessa por ele, dá-lhe cabo da cabeça e depois foge com outro.


Bruce Mozert

Modo 'Não percas tempo'

   O tempo que passamos longe das pessoas de quem gostamos é interminável desde o dia em que nascemos. O mundo havia de ser mais pequeno. Só devia haver um país, um liceu, uma empresa, uma rua na única cidade que houvesse. Portugal é enorme. É grande de mais. Do mundo nem se fala.
   Contam-se os minutos. Contam-se os quilómetros. O mundo está mal organizado. Os desconhecidos abundam. Telefonam. Aparecem. Os motoristas de táxi ocupam uma larga parte das nossas vidas. Os recepcionistas. As pessoas que nos perguntam as horas. Estupidamente, em nome da vida, ou de uma ideia de vida, perdemos o tempo que temos. Há pessoas com quem queremos estar, que querem estar connosco. Não são estas.    


10 Estratégias de Manipulação Para Manter o Público Alienado

1 – A ESTRATÉGIA DA DISTRAÇÃO

O elemento primordial do controle social é a estratégia da distracção que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e económicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distracções e de informações insignificantes. A estratégia da distracção é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. "Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais (citação do texto 'Armas silenciosas para guerras tranquilas')".

2 – CRIAR PROBLEMAS, DEPOIS OFERECER SOLUÇÕES

Este método também é chamado "problema-reacção-solução". Cria-se um problema, uma "situação" prevista para causar certa reacção no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise económica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

3 – A ESTRATÉGIA DA GRADAÇÃO

Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições socioeconómicos radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.

4 – A ESTRATÉGIA DO DEFERIDO

Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como sendo "dolorosa e necessária", obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Em seguida, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que "tudo irá melhorar amanhã" e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a ideia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

5 – DIRIGIR-SE AO PÚBLICO COMO CRIANÇAS DE BAIXA IDADE

A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entoação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse um menino de baixa idade ou um deficiente mental. Quanto mais se intente buscar enganar ao espectador, mais se tende a adoptar um tom infantilizante. Por quê?"Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestionabilidade, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reacção também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade (ver "Armas silenciosas para guerras tranquilas")".

6 – UTILIZAR O ASPECTO EMOCIONAL MUITO MAIS DO QUE A REFLEXÃO

Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e por fim ao sentido critico dos indivíduos.Além do mais, a utilização do registo emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar ideias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos...

7 – MANTER O PÚBLICO NA IGNORÂNCIA E NA MEDIOCRIDADE

Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. "A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores às classes sociais superiores seja e permaneça impossíveis para o alcance das classes inferiores (ver 'Armas silenciosas para guerras tranquilas')".

8 – ESTIMULAR O PÚBLICO A SER COMPLACENTE NA MEDIOCRIDADE

Promover ao público a achar que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto...

9 – REFORÇAR A REVOLTA PELA AUTOCULPABILIDADE

Fazer o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema económico, o individuo se auto-desvalida e culpa-se, o que gera um estado depressivo do qual um dos seus efeitos é a inibição da sua acção. E, sem acção, não há revolução!

10- CONHECER MELHOR OS INDIVÍDUOS DO QUE ELES MESMOS SE CONHECEM

No transcorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado crescente brecha entre os conhecimentos do público e aquelas possuídas e utilizadas pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neuro-biologia e à psicologia aplicada, o "sistema" tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele mesmo conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos.

terça-feira

America I've given you all and now I'm nothing



Numa carta de Dezembro de 1952, ela (Stella Sampas) escreve-lhe:

«Fico muito contente por não me teres ignorado por completo. Saber que tens tanto para nos dar a nós, pobres mortais, e constatar que apesar disso ninguém te estende a mão, isso deprime-me verdadeiramente.»

Ao que ele responde (a 10 de Dezembro de 1952):

«Mas o que eles não sabem é que me vou tornar no maior e mais famoso escritor da minha geração, tal como Dostoievsky, e um dia veremos isso, bem como a vacuidade das suas vidas passadas a correr atrás das modas e nas ilhas cintilantes de Itália»


Bob Dylan e Allen Ginsberg na campa de Jack Kerouac (fotos de Ken Regan)


Manipulação de massas com atum

A razão e os argumentos não conseguem lutar contra certas palavras e fórmulas. Elas são pronunciadas respeitosamente perante as multidões; e imediatamente os rostos assumem uma expressão submissa e as frontes se inclinam. Elas evocam nas almas imagens grandiosas e vagas, mas a própria falta de precisão que lhes atenua os contornos aumenta o seu poder sobrenatural. Podemos compará-las a essas terríveis divindades ocultas no tabernáculo, das quais o devoto se aproxima tremendo de medo.
(...)
É a necessidade de escravatura e não de liberdade que domina sempre a alma das multidões.



"Onde não estamos é que estamos bem. Já não estamos no passado, e então ele parece-nos belíssimo."
 Um momento do passado belíssimo:

Camille Claudel working on Sakountala in her studio, photo by William Elborn, 1887.

Este blog é fã da Lenore


Mais uma:


segunda-feira

O meu post sobre matar bebés

"É preciso matar os nossos bebés

(Esta seria considerada a lei Tchekhov. Com isto ele refere-se às criações originais. Por exemplo, ao criares uma história e teres já pensado num episódio que adoras e que «tem de entrar» vês que o TODO nada tem a ver com essa pequena PARTE que queres incluir...Apesar de muito gostares dela. Têm de se fazer sacrifícios, e o teu é matar esse bebé (o tal episódio))."

Relacionado com o tema: Kill your darlings


rising from destruction

P.s - Não gostei muito de como ficou este post, o que significa que é ele próprio um bebé que eu deveria ter matado.




 




terça-feira

Descer ao abismo e voltar com arte

"Ninguém volta ileso de uma descida ao abismo, porque no fundo de todo o abismo existe um espelho"


"Em 1842, o pintor inglês George Turner, famoso pelas suas pinturas marítimas, amarrou-se ao mastro de um navio, durante uma tempestade, para poder contemplar a fúria dos elementos sem correr o perigo de ser arremessado para fora do navio. Aguentou 4 horas o sacrifício, em nome da arte, e produziu uma pintura intitulada "Snow Storm".

A imagem do indivíduo atado ao mastro é um episódio da "Odisseia". Ulisses ordena aos seus marinheiros que ponham cera nos ouvidos e que o amarrem ao mastro. Assim, os marinheiros remam sem serem perturbados, e ele pode conhecer o canto das sereias sem se atirar ao mar em busca delas, como faziam todos os que se aventuravam por aqueles mares.

Em síntese, essa imagem representa o artista que quer chegar perto do abismo, mas quer também ter a certeza de voltar. Pelo bem da arte, ele quer ter uma experiência transcendente e perigosa, mas quer fazê-lo cercado de algumas garantias. Parece haver nisto uma certa cobardia, mas existe lógica: se o artista morrer durante a experiência, ela terá sido em vão, porque ele não foi capaz de retratá-la numa obra de arte. O objetivo do artista é a obra, ou seja, a "reportagem do que aconteceu", e não a experiência em si. Quando Aldous Huxley, em Maio de 1953, tomou quatro decigramas de mescalina dissolvidas em meio copo de água, ele fez isso acompanhado pela esposa e por um cientista que pesquisava o efeito das drogas, e gravou em fita tudo que foi dito naquela manhã – o que lhe serviu de base para o livro "As portas da percepção".

Jean-Paul Sartre foi outro que experimentou a mescalina. Em 1935, tomou mescalina e teve terríveis alucinações com monstros e caranguejos que o perseguiam. Há relatos de que ele julgava ver um enorme orangotango espreitando-o do lado de fora da janela. Uma parte do impacto mental desta experiência foi reconstituído em "A Náusea", que é tanto um romance existencialista quanto um relato de estado alterado de consciência. Em Beyond the Outsider, o livro em que descreve sua própria experiência com a mescalina, Colin Wilson observa que a experiência de Huxley foi próxima de uma iluminação mística, e a de Sartre uma verdadeira "bad trip". Por mais que se tomem precauções, ninguém volta ileso de uma descida ao abismo, porque no fundo de todo o abismo existe um espelho."


George Turner - Snow Storm

Ulysses and the Sirens

Depois tenho também aqui perdido no caderno o seguinte texto: "O artista produz porque se ocupa de si, porque transforma o reflexo em abismo, e o mergulho nele é tão arriscado como fecundo, pois trata-se sempre de conseguir regressar trazendo alguma coisa que se arrancou à escuridão." Diz que é de um tal Molder, mas vou ter de verificar. 

Parte 2 - Encontrei a fonte onde estava a citação do Molder (MOLDER, M. F. (2005) O que é que Louise Bourgeois sabe, que eu não sei? in Dias, I. (dir.) (2005).) antes de ter ido parar ao meu caderno: aqui, página 171.